Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Afirmam que a tal comissão importou e devia importar um enorme desperdício dos dinheiros públicos; porque o único resultado que prometia era alguma coleção de bichinhos para o museu nacional, que provavelmente também se entende que nos faz carregar com uma despesa de luxo. Vê-se daí que os nossos homens práticos aborrecem a história natural, que é, segundo eles, um gênero especial de poesia. Mas a comissão científica tinha ainda a incumbência de muitos outros e importantíssimos trabalhos, e, portanto, não procedia àquela observação, que, aliás, eu consideraria muito justa; porquanto, era puerilidade indesculpável tomar-se tanto incômodo para se arranjar lá por aqueles desertos uma coleção de bichinhos, quando aqui mesmo da capital do império se poderiam organizar, até entre os próprios homens práticos e os nossos grandes políticos, umas poucas de coleções de bichos de proporções colossais que ainda não foram classificados pelos naturalistas.
Mas, repito, não é das províncias centrais e longínquas que pretendo falar. Dessas temos notícia de que fosforizam as suas eleições periodicamente, e é o que basta. Quanto ao mais, representam um mundo que ainda está à espera do seu Colombo; e não admira que assim exista ignorado, quanto é certo que nem conhecemos bem a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro.
Note-se que esta incúria seria escusável ao montanhês de Minas, ao guasca do Sul, ao caipira do Paraná; o que, porém, muito mais surpreende é que os próprios cariocas não estejam ao fato da história e das crônicas da capital, de que tanto se ufanam.
Disse um escritor francês, cujo nome agora me não lembro, que entre os franceses são os parisienses os que conhecem menos Paris. No Brasil não se pode dizer coisa semelhante, porque os provincianos, como os cariocas, desconhecem do mesmo modo a nossa boa Sebastianópolis.
Se no outro tempo era grande essa antipatriótica falta de curiosidade, agora é muito pior: os paquetes a vapor e a facilidade das viagens ao velho mundo tiram-nos à vontade de passear os nossos, e é mais comum encontrar um fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e palácios de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos conventos e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias, e até mesmo que nos fale com verdadeiro interesse dos sítios encantadores e das eminências majestosas que enchem de sublime poesia a capital do Brasil.
Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.
Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.
O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.
Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.
Vamos passear.
Não se incomodem com os preparativos de uma viagem, que talvez seja longa: eu tomo isso à minha conta. Não tenham medo de se verem metidos por mim dentro dos ônibus, gôndolas ou carros da praça; desejo muito dar o maior prazer que for possível aos meus companheiros de passeio, para condená-los a semelhante martírio.
Se algum dos meus leitores é, por infelicidade, paralítico, se algum outro quebrou as pernas na luta, no litoral de dezembro último em qualquer dos pontos do império onde a Vestal foi festejada com o emprego da força material, se ainda outro está tão atarefado com os cinco ou seis cargos em que se consagra ao serviço da pátria que não tem tempo de dar um passo na rua, ainda esses mesmos não serão privados de passear comigo. Não há incompatibilidade que afetem o nosso passeio. Não preciso pedir o braço, apenas peço a atenção dos meus leitores. Eu passearei escrevendo, eles lendo, e ainda assim – oh! fatal idéia! – pode bem ser que eles se fatiguem primeiro do que eu.
Acendamos pois um Havana (da Bahia), ou um Manilha (doRio de Janeiro), e... passeemos.
Excluamos do nosso passeio toda a idéia de ordem ou sistema:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.