Por Martins Pena (1846)
PAULINO – Que diabo é lá isso? Aqui nesta casa ensaca-se gente como farinha... E como hei de eu sair daqui?
ALEXANDRE, amarrando a boca do saco – Quer vir outra vez para o saco?
PAULINO – Nada, quero saber como hei de sair desta caverna de assassinos.
ALEXANDRE – Acompanhando-me quando eu sair com o pedestre, levando este saco às costas.
PAULINO – Bravo, compreendo excelentemente! É melhor do que ser atirado ao mar. (Ouve-se bulir na fechadura.)
ALEXANDRE – Ele aí vem....... (Paulino corre, apressado, e esconde-se no armário, e Alexandre põe Balbina dentro do saco ao ombro.)
CENA XIV
Entra o PEDESTRE.
PEDESTRE – Tudo está em silêncio, não passa ninguém... Fui até ao canto e não avistei vivalma. Vamos, com cuidado; depois virei buscar o outro corpo. Apaguemos a luz. (Apaga a vela e sai seguido de Alexandre, que leva Balbina as costas. Tendo saído, fecha a porta por fora.)
CENA XV
PAULINO, logo que o PEDESTRE e ALEXANDRE saem, abre a porta do armário e vai saindo com cautela.
[PAULINO] – Creio que fecha a porta... Mau! E deixou-me no escuro. (Encaminha-se para a porta e conhece que está fechada.) Está fechada! Fechada! Oh, com mil diabos, estou ainda preso e em seu poder! Meu Deus, quando sairei eu desta maldita casa? Só, no escuro e com uma defunta... Ela está lá dentro morta e fui eu a causa da sua morte! Não tarda muito que venha sua alma por aí a pedir-me contas... Já tenho os cabelos todos arrepiados. Escapei de morrer apunhalado, afogado, mas de certo morrerei assombrado. Que noite, que noite! (Dá dentro uma hora, ao longe.) Uma hora! É a hora das almas do outro mundo... E eu fechado sozinho com uma defunta! (Do buraco da primeira porta à esquerda salta em cena um gato; ao ruído que este faz, saltando, Paulino se assusta e cai de joelhos) Ai, misericórdia, misericórdia! Padre nosso, que estás no céu, santificado seja vosso nome... santificado... venha a nós... que estás no céu... vosso nome... santificado... o pão nosso... santificado... que estás no céu... seja o vosso nome... as vossas dívidas... Creio que se foi embora... Nada ouço. (Levantase.) É a alma da desgraçada, que anda penando... Infeliz, Deus se compadeça de ti e por lá te tenha muito tempo sem mim... Ora, é célebre! Como eu perdi o amor a esta mulher, depois que ela morreu... Está-me parecendo que o medo que tenho rapado esta noite é que essa mudança. Ai, ai, eu daria o amor de todas as mulheres solteiras, casadas, viúvas e etc., só para me ver fora daqui e... (Aqui abrem a porta da direita.) Aí vem ela! É uma sombra branca... que vai até o teto... Ai, ai! (Cai de joelhos.)
CENA XVI
ANACLETA entra pela direita.
ANACLETA, entrando – Deixaram-me só... fugiram todos... Que homem bárbaro! Como está escuro! Estou só, só e abandonada. Como tenho a cabeça abalada da horrível queda que dei... Talvez Balbina esteja no seu quarto; vejamos. Ela não teria coração de desemparar-me, fraca como estou.
PAULINO, enquanto Anacleta tem este pequeno monólogo, reza em voz baixa – Salve Rainha, que estás no céu... neste vale de lágrimas... perdoai o pão nosso... assim como nós na vida eterna... amém Jesus... (Etc. Anacleta, dirigindo-se para a esquerda, a fim de entrar no quarto de Balbina, esbarra-se em Paulino, que está de joelhos, e ambos se assustam.)
ANACLETA, assustando-se e recuando – Ai!
PAULINO, caindo de bruços – Misericórdia, misericórdia!
ANACLETA, à parte – Quem será?
PAULINO, de bruços – Senhora Alma do outro mundo, tenha compaixão de mim! Quem a matou foi seu marido... Agarre-se com ele e leve-o para o inferno... Mas eu, senhora?
ANACLETA – Ai, que é o vizinho que ainda está por cá e julga-me morta.
(Dirigindo-se para Paulino:) Senhor...
PAULINO, à parte – Senhor! Esta alma é muito bem criada...
ANACLETA – Sou eu, não se assuste, não tenha medo...
PAULINO, à parte – Parece-me boa pessoa, coitadinha!
ANACLETA – Como se acha ainda aqui? Responda!
PAULINO – Assim era eu tolo!
ANACLETA – Meu marido que me julga morta...
PAULINO, levantando-se pouco a pouco – Que a julga morta?
ANACLETA – Só porque, fugindo eu do seu furor, rolei pelas escadas e caí sem sentido.
PAULINO, sentado – Pois a senhora não está morta? Pois eu não estou falando com a sua alma?
ANACLETA – Eu morta! Talvez assim me julgassem, por isso me abandonaram. Mas graças a Deus ainda estou viva.
PAULINO, levantando-se – Ainda está viva! Eu também estou vivo... Também já estive morto. Ambos estamos vivos e fechados nesta casa... E foi ele quem nos fechou... Ele mesmo, o marido... Oh, que pedestre estúpido!
ANACLETA – Senhor!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.