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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

CLEMENTINA, desata a rir – Ah, ah! Por mim? Ó Ritinha?

LUÍS – Cala-te!

CLEMENTINA – Quero que ela venha ver isto e que caminho leva o seu amor.

LUÍS – Ms há já três meses que ela me ama!

CLEMENTINA – Boa razão! Não a ama porque ela ainda o ama. É isto?

LUÍS – Pois priminha, há três meses que ela me ama, e isto já é teima, e eu não me caso com mulher teimosa, isso nem pelo diabo.

CLEMENTINA – É teima? Quem te ensinará!

LUÍS – Amei-a como amei a Quitinha, etc.

CLEMENTINA – O que aí vai! E todas essas foram teimosas?

LUÍS – Umas mais, outras menos, mas tu, minha querida priminha...

CLEMENTINA – Oh, não se canse, que não sou teimosa; cedo desde já.

LUÍS – Contigo o caso é outro; hoje mesmo te principiei a amar, hoje mesmo nos casaremos e hoje mesmo...

CLEMENTINA, interrompendo-o – Ah, ah, ah! Ó Ritinha? Ritinha? (Ritinha aparece e encaminha-se para eles. Traz na mão uma vara com uma rodinha acesa. Os negros acendem a fogueira.)

LUÍS – Também isto agora é teima!

CLEMENTINA – Vem cá.

RITINHA – O que é?

CLEMENTINA – Não te dizia que me admirava dos três meses?

RITINHA – Ah!

CLEMENTINA – Já te não ama, e chama-te de teimosa.

LUÍS – Priminha!

RITINHA – Já me não ama? (Ritinha diz estas palavras dirigindo-se para Luís, que salta para evitar o fogo da rodinha que Ritinha dirige contra ele.)


LUÍS, saltando – Cuidado com o fogo!

CLEMENTINA – Fazia-me protestos de amor.

RITINHA, mesmo jogo – Ah, fazia protestos de amor?

LUÍS – Não me queime! ( O velho fecha a janela com receio, que o vejam.)


CLEMENTINA – Disse que ardia por mim.

LUÍS, fugindo de Ritinha, que o persegue com a rodinha – Agora é que eu arderei, se me deitam fogo.

RITINHA, mesmo jogo – Assim é que me pagas!

LUÍS – Assim é que me pagas! (Fugindo sempre.)

CLEMENTINA – Fogo nele, para não ser bandoleiro! (Ritinha segue mais de perto Luís, que foge e refugiase em cima da carroça.) Assim, assim, Ritinha, ensina-o.

RITINHA – Desce cá para baixo!

LUÍS – Assim era eu asno!

CLEMENTINA – Ritinha, vá buscar lá dentro duas pistolas de lágrimas.

LUÍS – Nem pistola, nem espingarda, nem peças não me farão gostar de vocês. Agora não me caso nem à bala.

CLEMENTINA – E também, quem é que quer casar com você?

RITINHA – Eu não!

CLEMENTINA – Quem é que acredita nas palavras de um namora-paredes?

LUÍS – Muita gente!

CLEMENTINA – Estás desacreditado!

LUÍS – Na praça?

CLEMENTINA – Não, com todas as moças.

LUÍS – Melhor, mais gostarão de mim.

RITINHA – Isto não se pode aturar! Vamo-nos embora.

CLEMENTINA – Presunçoso! (Vai a sair pelo fundo.)

LUÍS – Adeus! Viva S. João! (Dentro respondem a gritos.)

CENA XVI

Luís, só, de cima da carroça.

LUÍS – Fi-la bonita! Agora nem uma nem outra. Ainda bem! Mas o diabo é ficar o maroto do Júlio muito ufano com eu ter cedido. Histórias! Não cedo em outras coisas, que namorada pouco se me dá; acho cem por uma que deixo. Contudo estou zangado. Maldita noite de S. João!

CENA XVII

Maria vem do fundo da cena e vai a entrar na casinha.

LUÍS, saltando da carroça – Psiu, psiu!

MARIA, parando – Quem é?

LUÍS, chegando-se para ela – Escuta uma coisa.

MARIA – Ai! O senhor que quer comigo?

LUÍS – Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda cá não apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.

MARIA – Ai, o senhor está a mangar comigo.

LUÍS – As mais que eu por aí vejo são feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu és a nata das ilhoas. (Quer abraçá-la.)

MARIA – Chegue-se para lá, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Luís a retém.)


LUÍS – Espera. É pena que estejas casada com teu marido.

MARIA – Ai, pois eu podia estar casada com um homem que não fosse meu marido?

LUÍS – Pois não.

MARIA – Está zombando? (Neste tempo a fogueira está de todo acesa e todas as pessoas que estão na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.)

LUÍS – Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver lá de cima com o clarão da fogueira.

MARIA – Estou com curiosidade.

LUÍS, à parte – Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Supõe que nunca tenhas visto teu marido... Que mãozinhas! (Pega-lhes nas mãos.)

MARIA – Largue minha mão!

LUÍS – Nem encontrado com ele... Que olhinhos!

MARIA – Deixe meus olhos!

LUÍS – Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, está claro que agora não estarias casada com o teu marido.

MARIA – Ora vejam! E é verdade!

LUÍS – Não terias dado essa mão, (pega-lhe na mão) que tanto estimo... (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.)

MANUEL, atravessando a cena – Custou-me o arranjar-me...

MARIA – O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos... De sorte que se eu não tivesse encontrado a Manuel, não estava hoje casada?

LUÍS – Decerto.

(continua...)

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