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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Pimenta — Dê cá o seu chapéu. (Toma o chapéu e o põe sobre o mesa) Então, o que ordena?

Antônio (com mistério) — Trata-se do negócio...

Pimenta — Ah, espere! (Vai fechar a porta do fundo, espiando primeiro se alguém os poderá ouvir) É preciso cautela. (Cerra a porta que dá para o interior)

Antônio — Toda é pouca. (Vendo o judas:) Aquilo é um judas?

Pimenta — É dos pequenos. Então?

Antônio — Chegou nova remessa do Porto. Os sócios continuam a trabalhar com ardor. Aqui estão dous contos (tira da algibeira dous maços de papéis), um em cada maço; é dos azuis. Desta vez vieram mais bem feitos. (Mostra uma nota de cinco mil-réis que tira do bolso do colete) Veja; está perfeitíssima.

Pimenta (examinando-a) — Assim é.

Antônio — Mandei aos sócios fabricantes o relatório do exame que fizeram na Caixa da Amortização, sobre as da penúltima remessa, e eles emendaram a mão.

Aposto que ninguém as diferençará das verdadeiras.

Pimenta — Quando chegaram?

Antônio — Ontem, no navio que chegou do Porto.

Pimenta — E como vieram?

Antônio — Dentro de um barril de paios.

Pimenta — O lucro que deixa não é mau; mas arrisca-se a pele...

Antônio — O que receia?

Pimenta — O que receio? Se nos dão na malhada, adeus minhas encomendas!

Tenho filhos...

Antônio — Deixe-se de sustos. Já tivemos duas remessas, e o senhor só por sua parte passou dous contos e quinhentos mil-réis, e nada lhe aconteceu.

Pimenta — Bem perto estivemos de ser descobertos - houve denúncia, e o Tesouro substituiu os azuis pelos brancos.

Antônio — Dos bilhetes aos falsificadores vai longe; aqueles andam pelas mãos de todos, e estes fecham-se quando falam, e acautelam-se. Demais, quem nada arrisca, nada tem. Deus há-de ser conosco.

Pimenta — Se não for o Chefe de Policia...

Antônio — Esse é que pode botar tudo a perder; mas pior é o medo. Vá guardá-los.

(Pimenta vai guardar os maços dos bilhetes em uma das gavetas da cômoda e a fecha à chave. Antônio, enquanto Pimenta guarda os bilhetes:) Cinqüenta contos da primeira remessa, cem da segunda e cinqüenta desta fazem duzentos contos; quando muito, vinte de despesa, e aí temos cento e oitenta de lucro. Não conheço negócio melhor. (Para Pimenta:) Não os vá trocar sempre à mesma casa: ora aqui.

ora ali... Tem cinco por cento dos que passar.

Pimenta — Já estou arrependido de ter-me metido neste negócio...

Antônio — E por quê?

Pimenta — Além de perigosíssimo, tem conseqüências que eu não previa quando meti-me nele. O senhor dizia que o povo não sofria com Isso.

Antônio — E ainda digo. Há na circulação um horror de milhares de contos em papel; mais duzentos, não querem dizer nada.

Pimenta — Assim pensei eu, ou me fizeram pensar; mas já abriram-me os olhos, e... Enfim, passarei ainda esta vez, e será a última. Tenho filhos. Meti-me nisto sem saber bem o que fazia. E do senhor queixo-me, porque da primeira vez abusou da minha posição; eu estava sem vintém. E a última!

Antônio — Como quiser; o senhor é quem perde. (Batem na porta)

Pimenta — Batem!

Antônio — Será o Chefe de Polícia?

Pimenta — O Chefe de Polícia! Eis, aí está no que o senhor me meteu!

Antônio — Prudência! Se for a policia, queimam-se os bilhetes.

Pimenta — Qual queimam-se, nem meio queimam-se; já não há tempo senão de sermos enforcados!

Antônio — Não desanime. (Batem de novo)

Faustino (disfarçando a voz) — Da parte da polícia!

Pimenta (caindo de joelhos) — Misericórdia!

Antônio — Fujamos pelo quintal!

Pimenta — A casa não tem quintal. Minhas filhas!...

Antônio — Estamos perdidos! (Corre para a porta, a fim de espiar pela fechadura. Pimenta fica de joelhos e treme convulsivamente) Só vejo um oficial da Guarda Nacional. (Batem; espia de novo) Não há dúvida. (Para Pimenta:) Psiu... psiu... venha cá.

Capitão (dentro) — Ah, Sr. Pimenta, Sr. Pimenta? (Pimenta, ao ouvir o seu nome, levanta a cabeça e escuta. Antônio caminha para ele)

Antônio — Há só um oficial que o chama.

Pimenta — Os mais estão escondidos.

Capitão (dentro) — Há ou não gente em casa?

Pimenta levanta-se — Aquela voz... (Vai para a porta e espia) Não me enganei! É o

Capitão! (Espia) Ah, Sr. Capitão?

Capitão, dentro — Abra!

Pimenta — Vossa Senhoria está só?

Capitão (dentro) — Estou, sim; abra.

Pimenta — Palavra de honra?

Capitão (dentro) — Abra, ou vou-me embora!

Pimenta (para Antônio) — Não há que temer. (Abre a porta; entra o Capitão. Antônio sai fora da porta e observa se há alguém oculto no corredor)

CENA XII

Capitão e os mesmos.

Capitão (entrando) — Com o demo! O senhor a estas horas com a porta fechada!

Pimenta — Queira perdoar, Sr. Capitão.

Antônio (entrando) — Ninguém.

Capitão — Faz-me esperar tanto! Hoje é a segunda vez.

Pimenta — Por quem é, Sr. Capitão!

Capitão — Tão calados!... Parece que estavam fazendo moeda falsa! (Antônio estremece; Pimenta assusta-se)

Pimenta — Que diz, Sr. Capitão? Vossa Senhoria tem graças que ofendem! Isto não São brinquedos. Assim escandaliza-me. Estava com o meu amigo Antônio

Domingos falando nos seus negócios, que eu cá, por mim não os tenho.

(continua...)

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