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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.  

- Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão! Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão por seus negros e surrar-me com um calabrote! 

- Ah! Ele disse isto? 

- Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem aí; não tarda. 

- Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso! 

- Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá sou do governo!... Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um capanga e o pajem; por conseguinte desta vez não tem desculpa. 

O capanga levantou os ombros com ar de indiferença. 

- Já sei; vá andando. 

- Posso ficar aqui mesmo. 

- Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço quem está perto de mim. 

- Safa!... Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico Tinguá. Lá o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onças, das suçuaranas, bem amarelinhas, ou três canários, à vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio. Já o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido. 

  Às últimas palavras de barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio atou aquela organização robusta e audaz, que difundia em torno de si a plenitude da sua pujança. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do caráter. 

- Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave. 

- Mas está custando a cumprí-la; confesse-se!... 

  Franziu ainda mais o sobrolho a Jão Fera, que mordeu os beiços a tirar sangue. Acabava de estrangular a jura, que a destra já se preparava para cravar no corpo de quem ousava duvidar de sua palavra. 

- Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem recebia os seus vinte patacões para tomar o empenho que tomei. 

- Por que então? 

- Basta que eu saiba. Só depois é que me disse, quando eu já tinha gasto seu dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia deixando a coisa para mais tarde, pois o senhor há de lembrar-se, que minha promessa foi dar conta do homem até São João que vem cair lá para a outra semana. Sou senhor de minha vontade, fazer hoje ou amanhã, quando me parecer, desde que naquele dia minha palavra estiver cumprida. 

Aí está a razão... 

- Quem duvida que o camarada é um homem honrado? Então eu não sei com quem lido? 

- Deixe-me acabar. Aí está a razão de não ter eu dado conta ainda da sua obra. Queria ver se me vinha alguma prata para livrar-me deste empenho. O senhor não vê diferença em mim? 

- Alguma, para falar a verdade. 

- Pareço um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas não ajuntei senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer recebê-los, e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto? 

- Isso nunca! O trato está em pé! 

- Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possança de si mesmo:  

- Estou ciente. O senhor cobra a sua dívida; eu pago-lhe na moeda que tenho, nesta, disse batendo na bainha da faca. Vá descansado; hoje ficamos quites. 

- Esse falar agora me agrada mais; e até, olhe lá, por cima do prometido, sempre a gente há de escorregar uma molhadura, se a obra for bem feita. 

- Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa concisão. 

- Ande lá. Então na venda do Chico? perguntou Barroso com o pé no estribo.  

- Já disse. 

- E logo que despachar o diabo? 

- Sim! 

- Boa mão, camarada. 

Ganhando a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcançada a planície, afastou-se a galope do sítio mal-assombrado. 

  Entretanto, o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distância, murmurava consigo: 

- Aquela cisma que eu tive há pouco!... Se não fosse o urutu!... No cabo não era ele, sem falar que estou lhe devendo... 

  E acrescentou: 

  - É preciso acabar com isto! Há de ser o que Deus quiser. 

  Suspendendo o corpo do urutu à ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele, para gastar o tempo da espera, quando alguma coisa suspeita fê-lo erguer de pronto a cabeça e aplicar as ouças. 

  Ressoava ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte de madeira. 

 

VII 

 

O marmanjo 

 

  No terreiro da fazenda das Palmas, junto à escada da casa de morada, os animais de montaria mordiam os freios de prata, raspando o chão com a ponta do casco.   Tinha-os pelas rédeas um mulato de libré cor de pinhão, avivada de preto e escarlate, com botas envernizadas de canhão amarelo, e chapéu de oleado a meia copa. Recostado ao socalco do patamar com ares de capadócio, o pajem fazia sinais para uma janela, onde aparecia amiúde a trunfa riçada de uma crioula. 

(continua...)

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