Por José de Alencar (1870)
Neste circuito, muitas vezes consumia o nosso chileno dois ou três anos. Freqüentemente chegava até Sorocaba, onde a grande feira de animais costuma reunir em maio grande número de marchantes de diversas paragens. Estes concursos têm grande encanto para o viajante que pode assim reviver as recordações de cada terra por onde passou. Além disso, na mesa do jogo e nas apostas, corre o ouro a rodo: fazem-se páreos fabulosos que afrontam os mais destemidos.
Estas coisas, o mascate gostava de ver para contá-las mais tarde nalgum ponto remoto, onde ele pudesse figurar como herói da história, no meio de alguma roda de bonitas muchachas.
Vendidas todas as fazendas, e apuradas as barganhas feitas pelo caminho, voltava o chileno a prover-se de uma nova carregação para continuar a vida nômade a que se habituara desde a infância. Essa locomoção constante era um elemento de sua existência; seu espírito superficial saciava-se logo das impressões de qualquer lugar, e carecia de uma diversão.
As pessoas, reunidas na varanda, pitavam o infalível cigarrito de palha, sorvendo a goles o mate chimarrão. A conversa, frouxa em começo, veio a cair sobre a gineta, que é juntamente com as histórias de briga e namoro o tema favorita da conversa dos gaúchos na campanha.
— Pois, senhores, é o que digo, exclamou o chileno. Nenhum será capaz de montar a égua que trago aí.
— Talvez seja ela tão chiquita, D. Romero, que um homem não a possa montar, e somente um gambirra, acudiu com ar sardônico um dos camaradas.
Os outros aplaudiram.
— Uma coisa é rir, amigos, e outra fazer, redargüiu o chileno.
— Pois sem dúvida que se há de montar, D. Romero, disse um invernista de São Paulo.
— Quer experimentar?
— Mande o senhor puxar a sujeitinha cá para o terreiro! disse erguendo-se um paraguaio.
D. Romero dirigiu-se ao dono da pousada:
— Faz favor, amigo, para satisfazer aos senhores.
Enquanto se foi buscar o animal que estava preso à soga no pastinho, contou D. Romero, como em caminho o apanhara de surpresa perto de um desfiladeiro, há três dias passados. Desde então fizeram ele e os dois camaradas que trazia, os maiores esforços para montá-lo; mas desistiram.
— Ainda não encontrei quem se atrevesse! concluiu o chileno.
Um sorriso incrédulo, no qual se embebia sofrível dose de arrogância e motejo, circulou pelos campeiros.
— Porventura os senhores duvidam? perguntou D. Romero assombrando-se.
— Não se duvida do conto, mas do animal, que seja como quer o amigo; e se não veremos.
— O senhor vem lá da terra onde se monta em carneiros ou lhamas, como lhes chamam, disse outro companheiro.
— Com licença, tenho visto os melhores ginetes e também entendo do riscado.
— Topa o senhor alguma coisa?
— Tudo, amigo. Tão guapa estampa de animal, não quero que haja em toda esta campanha até Chuquisada. Em Buenos Aires, Montevidéu, ou Porto Alegre. O ponto é apresentá-la que logo me choverão as onças. Pois, senhores, se algum dos presentes for capaz de montá-la, a égua é sua.
— Valeu! exclamou o paraguaio estendendo a mão ao chileno.
— Palavra de D. Romero.
— Bravo! exclamaram em coro. Venha a rapariga.
— Ei-la aí! disse o dono da pousada, apontando.
Ao lado da casa, junto à mangueira, aparecera com efeito o animal, trazido por um rapazinho que servia de peão. Não tiveram, porém, os companheiros tempo de examinar a égua; porque instantaneamente achou-se ela no pátio diante do alpendre. Com dois corcovos unicamente devorara a distância de muitas braças, que a separava da casa.
Se não fosse tão ligeiro, o rapazinho não escaparia da fúria com que a égua se arrojara para mordê-lo; felizmente conseguiu ele alcançar o moirão, onde passou a laçada do cabresto, pondo-se fora de alcance.
Na presença da gente que a cercava, a égua estacou, raspando o chão com a pata arminada de branco. Pôde-se então admirar-lhe a perfeição da estampa. Desta vez, contra o costume, não havia exageração da parte do chileno; era com efeito um soberbo animal.
Talhe esbelto e fino sobre alta estatura; cabeça pequena, colo cintado e garboso, pelo qual se encrespavam as longas crinas, esparsas como os anéis de basta madeixa; a anca roliça, ligeiramente bombeada e ondulando com os reflexos ardentes do luzido pêlo; os ilhais a se retraírem com um espasmo nervos; e finalmente uma roupagem baia, que nos cambiantes luminosos parecia veludo tecido a fio de ouro; tal era a imagem viva e palpitante que os gaúchos tinham diante dos olhos.
Animada por um assomo de cólera, essa beleza eqüina desenhava na imaginação daqueles homens os contornos voluptuosos de alguma gentil morena da redondeza, quando sucedia irritála uma palavra ou gesto de seu namorado. Ao mesmo tempo despertavam no ânimo de cada um os brios do picador, embora o fero olhar que desferiam as grandes pupilas negras da égua, sofreasse os ímpetos dos mais destemidos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.