Por José de Alencar (1860)
CENA IV (Carolina e Pinheiro)
Pinheiro – Eu lhe agradeço, Carolina.
Carolina – O que, senhor Pinheiro?
Pinheiro – A satisfação que me causaram suas palavras. Não pensava, dando esta ceia, que ia realizar um desejo seu.
Carolina – Ah! é verdade! Mas sou eu então que lhe devo agradecer.
Pinheiro – Faça antes outra coisa.
Carolina – O quê?
Pinheiro – Faça que o acaso se torne uma realidade; que esta noite de esperança se transforme em anos de felicidade. Aceite o meu amor.
Carolina – Para fazer o que dele?
Pinheiro – O que quiser; contanto que me ame um pouco, sim?
Carolina – Não.
Pinheiro – Amor por amor, já tenho um; e este, ao menos é primeiro.
Pinheiro – O meu será o segundo e eu procurarei torná-lo tão belo, tão ardente que já não tenha mais inveja do primeiro.
Carolina – Já me iludiram uma vez essas promessas, quando eu ainda via o mundo com os olhos de menina, hoje não creio mais nelas.
Pinheiro – Não tem razão.
Carolina – Oh! se tenho! O senhor diz agora que me ama, por mim, para fazer-me feliz, para satisfazer os meus desejos, os meus caprichos, as minhas fantasias. Se eu acreditasse nessas belas palavras, sabe o que aconteceria?
Pinheiro – Me daria a ventura!
Carolina – Sim, mas ficaria o que sou. No momento em que lhe pertencesse, tornarme-ia um traste, um objeto de luxo; em vez de viver para mim, seria eu que viveria para obedecer às suas vontades. Não; no dia em que a escrava deixar o seu primeiro senhor, será para reaver a liberdade perdida.
Pinheiro – Não é livre então? Não pode amar aquele que preferir?
Carolina – Para uma mulher ser livre é necessário que ela despreze bastante a sociedade para não se importar com as suas leis; ou que a sociedade a despreze tanto que não faça caso de suas ações. Eu não posso ainda repelir essa sociedade em cujo seio vive minha família; há alguns corações que sofreriam com a vergonha da minha existência e com a triste celebridade do meu nome. É preciso sofrer até o dia em que me sinta com bastante coragem para quebrar esses últimos laços que me prendem. Nesse dia, se houver um homem que me ame e que me ofereça a sua vida, eu a aceitarei; porém como senhora.
Pinheiro – E por que este dia não será hoje? Diga uma palavra! uma só...
Carolina – Hoje?...Não!... Talvez amanhã.
Pinheiro – Promete?
Carolina – Não prometo nada. Vamos cear. Anda. Helena! Ribeiro!... Deixem-se de conversar agora.
Pinheiro – José, serve-nos.
CENA V (Os mesmos, Ribeiro, Helena e Meneses)
Ribeiro – É mais de meia-noite.
Helena – Um dia não são dias, Sr. Ribeiro; amanhã dorme-se até às duas horas da tarde.
Carolina – Justamente as horas que eu passo mais aborrecida.
Tu me pareces a mesma. Achaste o que procuravas?
Carolina – Ainda não. És difícil de contentar.
Pinheiro – Adeus, Meneses. Queres cear conosco?
Meneses – Muito obrigado.
Pinheiro – Não faças cerimônia.
Meneses – Tu és que estás usando de etiquetas. Onde vieste usar um quinto parceiro para jogar uma partida de voltarete?
Ribeiro – Ah! É por isso que não aceitas?
Meneses – Decerto! Nesta espécie de ceias, a regra é nem menos de dois, nem mais de quatro; um quinto transtorna a conta, a menos que não seja um zero. Ora, eu não gosto de ser nem importuno, nem... Vieirinha!...
Pinheiro – Deixa-te disso; vem cear.
Meneses – É escusado insistires.
Ribeiro – Pois não sabes o que perdes.
Meneses – Não; mas sei quanto ganho.
Pinheiro – Podemos ir-nos sentando.
CENA VI
(Os mesmos, Luís, Araújo e José)
Araújo – Tu não és capaz de adivinhar quem eu vi esta noite no teatro.
Luís – Alguma tua apaixonada?
Araújo – Não tenho... Uma pessoa que te fez bastante mal.
Luís – Quem?
Araújo– Lembras-te daquela mulher que mandava fazer costuras... (Vendo Carolina, aperta o braço de Luís) oh!
Luís – Ela!...
Araújo – Não faças estaladas. Finge que não a vês; é o melhor.
Luís – Adeus. Não posso ficar aqui.
Araújo – Deixa-te disso, Luís. Nada de fraquezas!
Luís – Mas a sua presença é uma tortura.
Araújo – Come alguma coisa: é o melhor calmante para as dores morais. Tenho estudado a fundo a fisiologia das paixões e estou certo que o coração está no estômago quando não está na algibeira.
Meneses – Araújo!
Araújo – Oh! Não te tinha visto.
Meneses – Estiveste no teatro?
Araújo – Estive.
Meneses – Que tal correu a Favorita?
Araújo – Bem; por que não foste?
Meneses – Tinha uma partida a que não podia faltar.
Pinheiro – Anda mais depressa, José!
José – Pronto! Uma mayonnaise soberba!
Helena – De quê?
José – De salmão? (Durante este último diálogo, Carolina tira as luvas e o mantelete, que vai deitar no sofá à direita; Luís ergue-se. O trecho seguinte da cena é dito à meia-voz)
Carolina – Luís.
Luís– Silêncio!
Carolina – Não me quer falar, meu primo?
Luís – Com que direito os lábios vendidos profanam o nome do homem honesto que deve a posição que tem ao seu trabalho? Com que direito a moça perdida quer lançar a sua vergonha sobre aqueles que ela abandonou?
Carolina – Não me despreze, Luís.
Luís – Não a conheço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.