Por José de Alencar (1857)
Que muda e santa linguagem não falavam essas duas almas, embebendo-se uma na outra! Que delícia e que felicidade não havia nessa mútua transmissão de vida entre dois corações que palpitavam um pelo outro!
Assim ficaram tempo esquecido; ambos viviam uma mesma vida, que se comunicava pelo fluido do olhar e pelo contato das mãos; pouco a pouco as suas cabeças se aproximaram, os seus hálitos se confundiram, os lábios iam tocar-se, Jorge afastou-se de repente, como se sentisse sobre a sua boca um ferro em brasa; desprendeu as mãos e sentou-se pálido e lívido como um morto.
A menina não reparou na palidez de seu marido; toda entregue ao amor, não tinha outro pensamento, outra idéia.
Deixou cair a cabeça sobre o ombro de Jorge; e, sentindo as palpitações do seu coração sobre o seio, achava-se feliz, como se ele lhe falasse, a olhasse e lhe sorrisse.
Foi só quando o moço, erguendo docemente a fronte da menina, a depôs sobre o recosto da almofada, que Carolina olhou seu amante com surpresa e viu que alguma coisa se passava de extraordinário.
— Jorge, disse ela com a voz trêmula e cheia de angústias, tu não me amas.
— Não te amo! exclamou o moço tristemente; se tu soubesses de que sacrifícios é capaz o amor que te tenho!...
— Oh! não, continuou a moça, abanando a cabeça ; tu não me amas! Vi-te todo o dia triste; pensei que era a felicidade que te fazia sério, mas enganei-me.
— Não te enganaste, não, Carolina, era a tua felicidade que me entristecia.
— Pois então saibas que a minha felicidade está em te ver sorrir. Vamos, não me ames hoje menos do que me amavas há dois meses!
— Há dois momentos, Carolina, em que o amor é mais do que uma paixão, é uma loucura; é o momento em que se possui ou aquele em que se perde o objeto que se ama.
A menina corou e abaixou os olhos sobre o tapete.
— Dize-me, tornou ela para disfarçar a sua confusão, o que sentiste hoje no momento em que as nossas duas mãos se uniram sob a bênção do padre?
Jorge estremeceu e ia soltar uma palavra que reteve; depois disse com algum esforço:
— A felicidade, Carolina.
— Pois eu senti mais do que a felicidade; quando nossas mãos se uniam tantas vezes e que nós conversávamos horas e horas, eu era bem feliz; mas hoje quando ajoelhamos, não sei o que se passou em mim; parecia-me que tudo tinha desaparecido, tu, eu, o padre, minha mãe e que só havia ali duas mãos que se tocavam, e nas quais nós vivíamos!
O moço voltou o rosto para esconder uma lágrima.
— Vem cá, continuou a moça, deixa-me apertar a tua mão; quero ver se sinto outra vez o que senti. Ah! naquele momento parecia que nossas almas estavam tão unidas uma à outra que nada nos podia separar.
A moça tomou as mãos de Jorge e, descansando a cabeça sobre o recosto da conversadeira, cerrou os olhos e assim ficou algum tempo.
— Como agora!... continuou ela, sorrindo. Se fecho os olhos, vejo-te aí onde estás. Se escuto, ouço a tua voz. Se ponho a mão no coração, sinto-te!
Jorge ergueu-se ; estava horrivelmente pálido.
Caminhou pelo gabinete agitado, quase louco; a moça o seguia com os olhos; sentia o coração cerrado; mas não compreendia.
Por fim o moço chegou-se a um consolo sobre o qual havia uma garrafa de Chartreuse e dois pequenos copos de cristal. Sua noiva não percebeu o movimento rápido que ele fez, mas ficou extremamente admirada, vendo-o apresentar-lhe um dos cálices cheio de licor.
— Não gosto! disse a menina com gracioso enfado.
— Não queres então beber à minha saúde! Pois eu vou beber à tua. Carolina ergueu-se vivamente e, tomando o cálice, bebeu todo o licor.
— Ao nosso amor!
Jorge sorriu tristemente.
Dava uma hora da noite.
CAPÍTULO VIII
Jorge tomou as mãos de sua mulher e beijou-as.
— Carolina!
— Meu amigo!
— Sabes o meu passado: já te contei todas as minhas loucuras e tu me perdoaste todas; preciso, porém, ainda do teu perdão para uma falta mais grave do que essas, para um crime talvez!
— Dize-me: esta falta faz que não me ames? perguntou a menina um pouco assustada.
— Ao contrário, faz que te ame ainda mais, se é possível! exclamou o moço.
— Então não é uma falta, respondeu ela, sorrindo.
— Quando souberes! murmurou o moço, talvez me acuses.
— Tu não pensas no que estás dizendo, Jorge! replicou a moça sentida.
— Escuta: se eu te pedir uma coisa, não me negarás?
— Pede e verás.
— Quero que me perdoes essa falta que tu ignoras!
— Causa-te prazer isto?
— Como tu não fazes. idéia! disse o moço com um acento profundo.
— Pois bem; estás perdoado.
— Não; não há de ser assim; de joelhos a teus pés.
E o moço ajoelhou-se diante de sua mulher.
— Criança! disse Carolina, sorrindo.
— Agora dize que me perdoas!
— Perdôo-te e amo-te! respondeu ela, cingindo-lhe o pescoço com os braços e apertando a sua cabeça contra o seio.
Jorge ergueu-se calmo e sossegado; porém ainda mais pálido.
Carolina deixou-se cair sobre a conversadeira; suas pálpebras cerravam-se a seu pesar; pouco depois tinha adormecido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.