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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a coluna e o busto de Laura ele via a sombra da mulher a quem amava, não se interrompeu seu enlevo. De vez em quando passava-lhe pelo rosto um lampejo sutil, no qual pressentia o olhar furtivo da moça.

CAPÍTULO  V

Estava a subir o pano.

Amélia resolvera ficar onde estava, e não tomar o lugar da frente, apesar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão solidamente calcada em seu coração, caiu de repente: bastou um olhar. Vira na platéia, encostado à balaustrada da orquestra, um elegante cavalheiro.

Era Horácio.

O sorriso brando que manava dos lábios da moça, como a onda pura e cristalina de um ribeiro, desapareceu então sob outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da inocência.

A moça colocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus movimentos a suprema elegância do talhe. Demorou-se mais do que era preciso nesse ato; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quase imperceptível de misteriosa expansão. Dir-se-ia que ela se queria debuxar no quadro iluminado do camarote.

A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu binóculo de marfim; e a moça com um irresistível assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.

Durante o ato, Amélia distraiu mais a atenção do semblante pálido de Leopoldo. Enleava os olhos na figura elegante de Horácio; prendia-se ao fino buço negro que sombreava o lábio desdenhoso do leão; embebia-se toda na graça de sua atitude, tentando assim resistir à curiosidade incômoda que atraía sua atenção para o importuno desconhecido.

Não sei por que, Leopoldo, cuja adoração era infatigável como a emanação de uma chama perene, sentiu naquela ocasião a necessidade de dar um repouso à sua contemplação. Então como se a luz que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, ele pôde ver destacar-se o perfil gracioso da moça.

— Tem o cabelo castanho! E pena! Acreditava que a mulher a quem amasse algum dia. havia de ser loura. É a cor do reflexo da luz, deve ser a cor desse véu casto que Deus fez para o pudor. A madeixa foi dada à mulher para recatar a face que enrubesce e o seio que palpita; essa gaza preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.

O moço já não olhava para Amélia; com as pálpebras cerradas estava agora vendo-a na penumbra d'alma.

— Mas para mim é indiferente que tenha o cabelo castanho; podia tê-lo negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essência pura e imaculada! Se Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha aflição, para amparar-me em meu isolamento, para encher de inefáveis júbilos meu ser saturado de amarguras, posso eu queixar-me porque o Senhor o vestiu de uma simples túnica de lã, e não de um suntuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabelos louros: pois agora só gosto, só quero, só vejo uns cabelos castanhos, porque pertencem a ela, se impregnam de seu perfume e respiram seu hálito!

Terminara o ato. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez lembrouse de saber quem era, na sociedade, aquela mulher que lhe pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a considerá-la como uma coisa sua; parecia-lhe que ninguém mais existia senão eles dois.

Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a pergunta. Não encontrou; mas ao cabo de alguns instantes descobriu o leão em seu posto.

— Ah! lá está Horácio que pode me informar, ele conhece todo o mundo! Justamente agora pôs o binóculo para o camarote.

Como desejava sair, dirigiu-se para aquele lado; mas o leão, inquieto e preocupado, saíra açodadamente, e subia de um pulo as escadas que o separavam da segunda ordem.

— Aquela mão é irmã do meu adorado pezinho! Não tem a graça dele, sem dúvida, nem se compara com aquele mimo de amor; mas há um certo ar de família, um quer que seja!...

Assim cogitando, Horácio chegara à porta de um camarote, e pela fresta fitara com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente pequena e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o binóculo de madrepérola.

O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta e a mãozinha que lhe servira de fanal, abaixou o olhar para a fímbria do vestido a ver se descobria alguma coisa, o peito, a ponta, a sombra ao menos do pezinho mimoso, do ídolo de sua alma. Mas não foi possível: o vestido arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e contudo o mancebo ali ficou imóvel, palpitante de emoção, como se esperasse dos lábios da mulher amada o monossílabo que devia decidir de seu destino.

A paixão que o mancebo concebera pela dona incógnita da botina achada, longe de se desvanecer, adquirira uma veemência extrema. Horácio, o feliz conquistador, o coração fogoso e inflamável, nunca ardera por mulher alguma como agora ardia por aquele pezinho idolatrado. Era um verdadeiro amor de leão, terrível e indômito; era um delírio, uma raiva.

(continua...)

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