Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
FÁBIO – Tens medo desse homem... (Aparece Bráulio à porta do fundo.)
ÚRSULA – Medo!... oh!... seja medo... supõe o que te parecer... imagina embora que eu me confundo nos turvos segredos dessa sociedade brilhante, onde às vezes se escondem traições e vergonhas nas dobras dos ricos vestidos de seda; mas, eu to disse já, não abusarás mais de mim...
FÁBIO – Isso passa... são recordações da mocidade... pecados veniais do outro tempo...
ÚRSULA – Fábio! tu me insultas!...
FÁBIO – Estamos entendidos: Clarimundo é um inimigo demais, e tu uma aliada de menos; ele, porém, é homem sem dinheiro, baluarte sem pólvora, fortaleza sem soldados, e tu uma alma ingrata que me embaraças a felicidade com os teus casos de consciência. Zombo do inimigo e dispenso a aliada. Agora só preciso de um auxiliar, é Bráulio.
CENA II
ÚRSULA, que logo se retira, FÁBIO e BRÁULIO
BRÁULIO (A Úrsula.) – O último dos criados de v.ex.! (A Fábio.) Às ordens de v.s.
FÁBIO (Apresentando) – O sr. Bráulio...
ÚRSULA (Saudando com desdém.) – Ah...
FÁBIO – Estava então aí... de perto?...
BRÁULIO – Passava por acaso, quando ouvi pronunciar o meu nome; mas de perto, ou de longe sou como o diabo, acudo logo à primeira evocação.
ÚRSULA (A Fábio.) – Voltemos ao camarote.
FÁBIO (A Bráulio.) – Espere-me aqui um instante (A Úrsula.) Vamos, Úrsula.
ÚRSULA – Posso ir só. Fique. (Vai-se.) FÁBIO – O senhor escutava-nos... confesse.
BRÁULIO – É claro que ainda que estivesse escutando, não faria a confissão; mas eu não disputo o direito da suspeita: V.S. pode pensar o que quiser.
FÁBIO – Não se ofenda: nós somos bons amigos e a sua chegada foi muito oportuna; ontem à noite naquela desordem em que acabou o jogo, não pude informarme do que sua sobrinha conseguiu de Adriano, e agora é ainda mais urgente...
BRÁULIO – Amanhã à meia noite Adriano me roubará Dionísia.
FÁBIO (Apertando a mão a Bráulio.) – Ah! ainda bem! com tanto que ele não se arrependa.
BRÁULIO – Ele?... está acorrentado pelo coração; mas outra pessoa... talvez...
FÁBIO – Outra pessoa?... quem então poderia arrepender-se?...
BRÁULIO – Eu, por exemplo. Sejamos francos: v. s. tem tudo a ganhar e eu muito a arriscar. É certo que já recebi seiscentos mil réis, e que outro tanto me está garantido e sem dúvida receberei logo que se realizar a hipótese.
FÁBIO – Foi o que ajustamos, e nem eu fiz questão da quantia...
BRÁULIO – É verdade: tenho, porém, calculado que Dionísia vale mais.
Dionísia é a minha sereia.
FÁBIO – E voltará ao seu mar, quando ela o quiser.
BRÁULIO – Sr. Fábio; jogo franco e cartas sobre a mesa: eu vou sofrer na reputação da casa... haverá baixa no barato; além disso, o coração da gente é de carne... hei de por força sentir saudades; e, enfim, quem me assegura que Dionísia não se tomará de paixão pelo novo amante?... em caso de dúvida não arrisco por tão pouco a fazenda.
FÁBIO – Como?... e a sua palavra?...
BRÁULIO – Mais um conto de réis e negócio feito. É evidente que preciso de justas compensações.
FÁBIO – É evidente que na hora suprema o senhor põe-me uma faca aos peitos: isto é escandalosamente imoral!.
BRÁULIO – Convenho: não me diz nada de novo; ambos nós porém rolamos juntos na imoralidade, razão maior para jogo limpo e cartas sobre a mesa.
FÁBIO – É uma extorsão!.
BRÁULIO – Meu senhor, não se comem trutas a bragas enxutas; além disso, eu não o obrigo a dar-me o dinheiro que peço; pelo contrário, estou pronto a restituir a quantia que já recebi e rompemos a negociação.
FÁBIO – Mas a sua palavra?... a sua palavra?...
BRÁULIO – Ora, sr. Fábio! pois um homem que se presta a entrar em negócio desta ordem pode ter escrúpulo de faltar ao ajustado?...
FÁBIO – Que franqueza repugnante!
BRÁULIO – Perdão... neste assunto nenhum de nós injuriaria o outro sem injuriar-se... e note bem: eu quero lucrar sem intenção de fazer mal, e V. S. paga para atingir a fins sinistros...
FÁBIO – Sr. Bráulio!... (Aplausos dentro.)
BRÁULIO – Faz-lhe conta o que propus? é resolver até amanhã.
VOZES (Dentro.) – À cena! à cena!...
FÁBIO – Repito... é uma extorsão... e há de arrepender-se da sua má
fé...(Aplausos dentro.)
CENA III
FÁBIO, BRÁULIO e CINCINATO
BRÁULIO – Que é isto?... Vem o teatro abaixo?... (Aplausos.)
CINCINATO – Não vem abaixo, porque é Provisório, se fosse permanente já tinha caído: o Brasil é o Império das inconseqüências; prova: a permanência do Provisório na Praça da Aclamação.
BRÁULIO – Mas que trunfo é esse?
CINCINATO – Apoteose das pernas postiças de duas dançarinas do Alcazar; é de direito: o can-can saiu extraordinariamente da Rua da Vala para aristocratizar-se no campo, e o respeitável quebra as mãos, aplaudindo os pontapés atirados à lua por dois cometas velocípedes do sexo feminino que vão rir pelos calcanhares de tanto entusiasmo por pernas que não são delas.
BRÁULIO – E o senhor fugiu à apoteose?
CINCINATO – Arrepios de inocência e confusões de pudor... as duas ninfas começavam a acalcanhar-me o coração e tive medo de apaixonar-me pelos seus dedos mindinhos.
BRÁULIO – Medo de se apaixonar pelos dedos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.