Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Logo depois ele tomou a lâmpada entre suas mãos e deu alguns passos para os quatro lados do gabinete, parando breves instantes em cada um dos lados, e estendendo os braços de cada vez na direção de um dos quatro pontos cardeais, feito o que tornou a pôr a lâmpada no seu lugar, e sobre ela colocou uma peça de ferro composta de três hastes que se firmaram na mesa e que na sua parte superior se aproximavam e eram ligadas por um anel de três correntes de ouro retorcidas, em cima do qual ele depositou um simples vidro côncavo do grau mais fraco.
Em seguida ouvimo-lo exorcizar em latim os espíritos elementares, e falar e evocar as ondinas, as salamandras, os silfos e os gnomos; empregou assim meia hora pelo menos a entender-se com invisíveis e duvidosos ou quiméricos seres.
Apenas acabou de falar, lançou sobre o fogo pequenas porções de diagrídio, escamônea, pedra-ume, enxofre e assa-fétida.
Resistimos às ondas do ativo perfume que inundou o gabinete.
A flama da lâmpada tornara-se viva, brilhantíssima, derramando tanta luz como se mil bicos de gás iluminassem a pequena sala.
A operação mágica adiantava-se, o armênio começou a exaltar-se e bradou com força:
Cashiel! Schaltiel! Aphiel! Zarabiel!...
E a flama da lâmpada redobrou de intensidade, como se obedecesse à voz do mágico. O gabinete parecia já arder em ondas de luz tão deslumbrante e vivíssima que se diria o fulgor dos relâmpagos demorado, continuado, sem intermitência.
De repente uma faisca se desprendeu da flama da lâmpada e foi, como pequena seta de fogo vivo, cravar-se e estremecer no fundo da concavidade do vidro que estava sobre o anel de ouro; uma tênue bolha de vidro fervente agitou-se em torno da faisca que sem apagar-se tomou a forma microscópica de uma salamandra, o gênio elementar do fogo que banhava-se no fogo, brincava no fogo, aspirava e respirava fogo.
Mas o armênio tocou com a ponta da espada na faisca que fazia ferver a bolha de vidro no fundo da concavidade, e disse com acento dominador:
—Fica aí!
A salamandra microscópica dobrou-se, como fugindo à ponta da espada, e o fogo da lâmpada de rubro que era se tornou pálido.
—Fica ai! tornou ele com voz mais forte ainda.
E a salamandra foi se mergulhando na bolha de vidro fervente, e a flama da lâmpada principiou a vacilar.
—Fica aí! bradou o armênio pela terceira vez.
E a salamandra desapareceu de todo na bolha do vidro que se abateu e sumiu-se sem deixar vestígios, nem depressão nem ruga na concavidade polida, e a espada que firme conservara a sua ponta, onde brilhara a faisca mágica, obedecendo à mão do armênio se retirou.
Imediatamente a flama da lâmpada se extinguiu, como ao sopro de um gênio invisível; reinou outra vez no gabinete profunda escuridão, e logo ao começarem as trevas, pareceu que um suspiro quase imperceptível movera o ar, mas tão de leve, tão sutilmente, como c vôo de uma borboleta. Era talvez a queixa extrema da salamandra presa; porque ainda se ouviu a voz do armênio, que disse com império de senhor:
—Fica aí, escrava!
Pouco depois iluminou-se de novo o gabinete do armênio, que lançando algumas gotas de um liquido perfumado sobre o vidro que expusera à operação cabalística, retirou este completamente frio do anel de ouro, onde o havia colocado.
Sem dizer-nos uma só palavra, sem parecer ocupar-se da nossa presença, o armênio armou o vidro em um aro de ouro, e no ponto em que o aro circular se liga ao anel destinado ao cordão pendurador, imprimiu sinistro selo, uma letra cabalística, com um sinete de forma triangular, e enlaçou no anel da luneta um cordão finíssimo, em que se entrançavam cabelos de todas as cores, e de diversos animais.
Estava terminada a mágica operação. O armênio me entregou a luneta, e disse-me então:
—Triunfo, e faço mal; mas posso prevenir o mal: criança! tu és inocente e bom, eu me compadeço de ti; escuta.
Recebi tremendo, a luneta, que ainda apenas sentia pelo tacto e não tinha visto pelos olhos, e escutei o armênio, que continuou a falar-me:
—Dou-te uma luneta mágica; veras por ela, quanto desejares ver, verás muito: mas poderás ver demais. Criança! dou-te um presente que te pode ser funesto: ouve-me bem! não fixas esta luneta em objeto algum, e sobretudo em homem algum, em mulher alguma por mais de três minutos; três é o número simbólico, e para ti será o número simples, o da visão da superfície e das aparências; não a fixes por mais de três minutos sobre o mesmo objeto, ou aborrecerás o mundo e a vida.
Eu estava todo trêmulo, e não sabia que dizer.
O armênio disse ainda:
(continua...)
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