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#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

Mas poderia Ângela adivinhá-lo? Aquela moça, filha de um homem sisudo, educada aos cuidados dele, mostrando ela própria certa elevação de sentimentos, e, até certo ponto, uma discrição de espírito, poderia amar a um rapazola vulgar, sem alma nem coração, frívolo como os divertimentos em que ele se comprazia? 

Se por um lado isto me parecia impossível, por outro eu me recordava do muito que era e do pouco que vira; recordava-me do que comigo mesmo sucedera e desanimava com a idéia de que tão boa pérola fosse engastada em cobre azinhavrado e vulgar. Nesta incerteza deitei-me e levei parte da noite sem poder conciliar o sono. Uma coisa aumentou ainda a minha dúvida: era a inicial bordada no lenço e a resposta que Ângela dera à pergunta que lhe fiz a meu respeito. Duas horas bastariam para que ela se deixasse impressionar por mim? Se assim fosse, temia que o sentimento que eu lhe tivesse inspirado fosse menos involuntário do que convinha, e doía-me não ter nela uma soma igual ao amor que eu já sentia. 

Resolvi todas as suspeitas, todas as dúvidas, todas as reflexões tristes ou agradáveis que me inspirava a situação, e dormi sobre a madrugada. 

Dois dias depois fui à cidade. 

João deu-me conta dos papéis e recados que lá tinham levado. Tomei um tílburi e andei dando as convenientes ordens para se ultimarem os negócios, visto que eram essas as ordens que eu recebera de minha mãe. 

De volta a Andaraí, entrando no meu quarto, mudei de roupa e dispunha-me a escrever uma carta para o norte. 

Abri a carteira e aí encontrei um lenço e o seguinte bilhete escrito em letra trêmula e incorreta: 

Vai partir. Esta lembrança é... de uma amiga. Guarde-a e lembre-se eternamente de quem nunca o riscará da lembrança. — Ângela. 

Lendo esta carta senti palpitar-me o coração com força. Parecia querer saltar do peito onde não cabia. Era aquilo claro ou não? Ângela amava-me, Ângela era minha. Estas palavras não sei que anjo invisível m’as dizia ao vivo e ao coração. 

Li e reli o bilhete; beijei-o; guardava-o, e ao mesmo tempo tornava a tirá-lo para ter o prazer de lê-lo de novo. 

Finalmente, passada a primeira comoção, nasceu o desejo de ver e falar a Ângela. Saí; era hora do jantar. 

Era impossível falar a sós com Ângela. Meus olhos, porém, falaram por mim, como os dela falaram por ela. 

Em toda a noite não houve ocasião de falar-lhe. O doutor, sempre amigo, cada vez mais amigo, empenhou-se comigo em uma daquelas práticas cordiais em que o coração e o espírito trazem entre si os sentimentos sinceros e as idéias puras. 

No dia seguinte tive ocasião de falar a Ângela. Quando nos vimos a sós, um acanhamento invencível apoderou-se de nós ambos. Depois de alguns minutos de silêncio Ângela perguntou-me timidamente: 

— Que achou no seu quarto? 

— Oh! a felicidade! respondi eu. 

E pegando na mão da moça que tremia, disse-lhe com voz igualmente trêmula: — Ângela, creio que me amas; eu também te amo, e como creio que se pode amar no... Diga-me? É certo que sou feliz? Sou amado? 

— É... murmurou a moça deixando cair a cabeça sobre o meu ombro e ocultando assim o rosto corado pela comoção. 

VI 

Dois dias depois estavam ultimados os negócios que me tinham trazido à corte, e eu devia voltar no próximo vapor. 

Durante esse tempo Azevedinho foi uma só vez a Andaraí; apesar do espírito brincalhão e alegre, Ângela não pôde recebê-lo com a afabilidade do costume. Isto deu que pensar ao rapaz. Olhou para mim um tanto desconfiado e saiu com a cabeça baixa.

Como estivessem ultimados os negócios fui à cidade para as últimas ordens. Estiveram em minha casa o caboclo e mais dois sujeitos. Despachei as visitas e fui escrever algumas cartas que mandei ao seu destino por João. 

Esperava o criado e a resposta de algumas cartas, quando ouvi bater palmas. Era Azevedinho. Fi-lo entrar e perguntei ao que vinha. 

O rapaz estava sério. 

— Venho para uma explicação. 

— Sobre... 

— Sobre as suas pretensões acerca da filha do Magalhães. 

Sorri-me. 

— É intimação? 

— Não, de modo nenhum; sou incapaz de fazer uma intimação que seria grosseira e mal cabida. Desejo uma explicação cordial e franca... 

— Não sei que lhe hei de dizer. 

— Diga que gosta dela. 

— Perdão; mas por que dever lhe hei de dizer isso; ou antes, diga-me com que direito mo pergunta? 

— Eu digo: amo-a. 

— Ah! 

— Muito... 

Fixei o olhar no rapaz para ver se a expressão do rosto indicava o que dizia. Ou fosse prevenção, ou realidade, achei que aquele amor era dos dentes para fora. — Mas ela? perguntei eu. 

— Ela não sei se ama. Devo acreditar que sim; posto que nunca tivéssemos explicações a respeito. Mas a sua resposta? 

— A minha resposta é pouca coisa: dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela. — Mas é? 

— Dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela... 

— Não quer ser franco, já vejo. 

— Não posso dizer mais. Para que nos ocuparemos a respeito de uma pessoa a cuja família devo obséquios, e que é, portanto, já parte de minha família? — Tem razão. 

E, despedindo-se de mim, saiu. 

(continua...)

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