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#Contos#Literatura Brasileira

D. Mônica

Por Machado de Assis (1876)

O almoço no dia seguinte foi mais triste que de costume. Gaspar abriu os jornais para passar os olhos por eles; a primeira coisa que leu foi a sua demissão. Vociferou contra a prepotência do ministro, a cruel severidade dos usos burocráticos, a exigência descomunal do comparecimento na Secretaria. 

— É indigno! exclamava ele, é infame! 

Veloso, que entrou daí a pouco, não achou tão censurável o ato do ministro; teve até a franqueza de lhe declarar que não havia outra solução, e que o primeiro que o demitira fora ele mesmo. 

Passada a primeira explosão, examinou Gaspar a situação em que o deixava o ato ministerial, e compreendeu (o que não era difícil) que o casamento com Lucinda era cada vez mais problemático. Veloso foi da mesma opinião, e concluiu que um único meio lhe restava: era casar com D. Mônica. 

Gaspar foi nesse mesmo dia à casa de Lucinda. O desejo de a ver era forte; muito mais forte era a curiosidade de conhecer de que maneira recebera ela a notícia da sua demissão. Achou-a um pouco triste, mas ainda mais fria que triste. Três vezes procurou estar a sós com ela, ou pelo menos falar-lhe sem que pudessem ouvi-los. A moça parecia esquivar-se aos desejos do rapaz. 

— Será possível que ela despreze agora o meu amor? perguntava ele a si mesmo ao sair da casa da namorada. 

Esta idéia irritou-o profundamente. Não sabendo que pensar daquilo, resolveu escrever lhe, e nessa mesma noite redigiu uma carta em que expunha lealmente todas as dúvidas do seu coração. 

Lucinda recebeu a carta no dia seguinte às 10 horas da manhã; leu-a, releu-a, e pensou muito antes de responder. Ia lançar as primeiras linhas da resposta, quando seu pai entrou na saleta onde ela se achava.

Lucinda escondeu à pressa o papel. 

— Que é isso? 

— Vamos lá; uma filha não pode ter segredos para seu pai. Aposto que é alguma carta de Gaspar? Pretendente demitido é realmente... 

Lucinda dera-lhe a carta, que o pai abriu e leu. 

— Tolices! disse ele. Dás-me licença? 

Dizendo isto, rasgou a carta e aproximou-se da filha. 

— Verás mais tarde, que eu sou mais teu amigo do que pareço. 

— Perdão, papai, disse a moça; eu ia responder que não pensasse mais em mim. — Ah! 

— Não foi o seu conselho? 

O pai refletiu algum tempo. 

— A resposta era decerto boa, observou ele; mas a melhor resposta é nenhuma. Em ele desenganando por si mesmo, não insiste mais... 

Tal é a explicação da falta de resposta à carta de Gaspar. O pobre namorado esperou dois dias, até que desenganado foi à casa do comendador. A família tinha ido passar alguns dias fora da cidade. 

— A sorte persegue-me! exclamou furioso o sobrinho do finado capitão. Um de nós há de vencer! 

Para matar a tristeza e ajudar o duelo com o destino, procurou fumar um charuto; meteu a mão na algibeira e não achou nenhum. A carteira apresentava a mesma solidão. Gaspar deixou cair os braços com desânimo. 

Nunca mais negra e viva se lhe apresentara ante os olhos a sua situação. Sem emprego, sem dinheiro, sem namorada e sem esperanças, tudo era perdido para ele. O pior é que sentia-se incapaz de domar o destino, apesar do desafio que lhe arremessara pouco antes. Pela primeira vez a idéia dos trezentos contos do tio lhe reluziu ao longo como uma plausibilidade. A visão era deliciosa, mas o único ponto negro apareceu logo dentro de um carro que parou a poucos passos dele. Dentro do carro ia D. Mônica; ele viu-a inclinar-se pela portinhola e chamá-lo. 

Acudiu como bom sobrinho que era. 

— Que fazes aí? 

— Ia para casa. 

— Anda jantar comigo. 

Gaspar não podia trocar uma realidade por uma hipótese, e aceitou o conselho da tia. Entrou no carro. O carro partiu. 

Seria ilusão ou realidade? D. Mônica pareceu-lhe nessa ocasião menos velha do que antes a achava. Ou fosse da toilette, ou de seus olhos, a verdade é que Gaspar viu-se obrigado a reformar um pouco o juízo anterior. Não a achou moça; mas a velhice pareceu-lhe mais fresca, a conversa mais agradável, o sorriso mais meigo e o olhar menos apagado. 

Estas boas impressões foram bom tempero ao jantar, que aliás era excelente. D. Mônica mostrava-se, como sempre, carinhosa e boa; Gaspar demorou-se ali até perto das dez horas da noite. 

Voltando à casa, refletiu que, se porventura pudesse casar com outra pessoa que não fosse Lucinda, casaria com D. Mônica, sem nenhum pesar nem arrependimento. — Não é moça, pensou ele, mas é boa e são trezentos contos. 

Trezentos contos! Este algarismo perturbou o sono do rapaz. Primeiramente custou-lhe a dormir; ele via trezentos contos em cima do travesseiro, no teto, nos portais; via-os transformados em lençóis, em cortinados, em cachimbo turco. Quando conseguiu dormir, não conseguiu livrar-se dos trezentos contos. Sonhou com eles a noite inteira; sonhou que os comia, que os cavalgava, que os dançava, que os aspirava, que os gozava, em suma, por todos os modos possíveis e impossíveis. 

Acordou e reconheceu que tudo fora sonho. 

Suspirou.

(continua...)

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