Por Padre Manuel da Nóbrega (1556)
NUGUEIRA: Contai-me o mal de hum destes e ho mal de hum philosopho romano. Hum destes, muito bestial, sua bem-aventurança hé matar e ter nomes, e esta hé sua gloria por que mais fazem. Ha lei natural nam a guardão porque se comem; sam muito luxuriosos, muito mentirosos, nenhuma cousa aborresem por má, e nenhuma louva[m] por boa; tem credito em seus feiticeiros: aqui me emçarrareis tudo. Hum philosopho hé muito sabio, mas muito soberbo, sua ben-aventurança está na fama ou nos deleites, ou nas victorias de seus inimigos; muito malisioso, que a verdade que lhe Deus ensinou, escondeo, como diz São Paulo; não guardão a lei natural, posto, que a entendão; muito vitiosos no vitio contra a natura; muito tiranos e amigos de senhorear; mui cobisosos e mui temerosos de perderem o que tem; adorão idolos, sacrifiquão-lhe sangue humano, e senhores de todo o género de maldade: ho que não achareis nestes porque, segundo dizem os Padres que comfessam, em dous ou tres dos mandamentos tem que fazer com elles; antre si vivem mui amigavelmente como está claro: pois qual vos parece maior penedo pera desfazer?
GONÇALO ALVAREZ: De rroim gado não hai que escolher, mas todavia queria que me respondesseis às rezõis de riba mais distintamente.
NUGUEIRA: Pollo que está dito bem clara está a reposta.
Baixar texto completo (.txt)NÓBREGA, Manuel da. Diálogo sobre a conversão do gentio. Com preliminares e anotações históricas e críticas de Serafim Leite. Lisboa: 1954