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#Crônicas#Literatura Brasileira

Bons Dias

Por Machado de Assis (1888)

Mas, meu caro colega, os meus eleitores estão mortos. Há dois dias vivia o Bandeira, de Pelotas; pois morreu, aqui está o telegrama, que recebi agora mesmo da família. Sabe que somos velhos conhecidos . . .

Entretanto, aquela frase, que em português dá este resultado, talvez possa ser explicada pelo arábico, mas eu não sou bei de Tunes.

Outras muitas cousas me explicará o colégio de intérpretes. Não as digo todas; mas aqui vai mais uma.

Os espiritistas brasileiros acabam de dar um golpe de mestre. Apareceu por aqui um médium, Dr. Slade é o seu nome, com a fama de ser prodigioso. A Federação espírita Brasileira nomeou uma comissão para estudar os fenômenos de escritura direta sobre ardósias e outros efeitos físicos produzidos com o médium. Pois, senhores, não achou que o homem valesse a fama; declarou que os trabalhos ficaram muito abaixo do que esse mesmo médium conseguiu na Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos e Austrália. É verdade que a própria Federação explica a diferença. Todos os que estudam os fenômenos espíritas (diz ela) conhecem que as mediunidades estão sujeitas a esses eclipses." E noutro lugar: Sabem todos que os invisíveis não estão servilmente à nossa disposição."

Ora tudo isto, que parece algaravia, sendo l do por um espírita, é como a língua de Voltaire, pura, límpida, nítida, e fácil. Os invisíveis não estão servilmente à nossa disposição Não falo do enriquecimento da língua com a palavra mediunidade, que é nova, sem ser esbelta.

Fosse, eu bei de Tunes, e o meu colégio me explicaria tudo isso e mais isto: Somente lamentamos que nesses eclipses da sua faculdade, O medium, sem dúvida por sugestões malignas, busque simular os fenômenos que obtém nas condições normais..."

Ao que parece, o medium não só foi (com perdão da palavra) apenas minimum, mas até procurou embaçar a Federação. Não andou bem; e a Federação cumpriu o Seu dever desvendando as sugestões malignas. Nem pareça que isto mesmo foi sugestão de despeito; a Federação conclui francamente aquele período: ...Lato aqui plenamente verificado."

Valha-me Nossa Senhora! Que porção de cousas obscuras, que eu nunca hei de entender! E dai, quem sabe? Schopenhauer chegou a crer nas mesas que giram; há quem acredite no casamento da constituição americana com o sistema parlamentar. Não é muito acreditar nos motivos do eclipse do Dr. Slade, mesmo sem entendê-los. .. Ah! por que não me fazem bei de Tunes!

Boas noites.

[78]

[29 julho]

BONS DIAS!

Antes de mais nada deixem-me dar um abraço no Luís Murat, que acaba de não ser eleito deputado pelo l2.° distrito do Rio de Janeiro. Eu já tinha escovado a casaca e o estilo para o enterro do poeta e o competente necrológio; ninguém está livre de uma vitória eleitoral. Escovei-os e esperei as notícias.

Vieram elas, e não lhe digo nada: dei um salto de prazer. Cheguei à janela; vi que as rosas,—umas grandes rosas encarnadas que Deus me deu, —vi que estavam alegres e até dançavam, a música era um bater de asas de pássaros brancos e azuis, que apareceram ali vindos não sei donde, nem como.

Sei que eram grandes, que batiam as asas. que as rosas bailavam e que as demais plantas pareciam exalar os melhores cheiros. Umas vozes surdas diziam rindo: Murat, derrotado. Murat, derrotado.

E que bonita derrota. Deus de misericórdia! Podia perder a eleição por vinte ou trinta votos; .seria então um meio desastre, porque abria novas e fundadas esperanças. Mas, não, senhor, a derrota foi completa; nem cinqüenta votos. Por outros termos, é um homem liberto teve a sua lei de 13 de maio: "Art. 1.°. Luís Murat continuará a compor versos. Art. 2.°. Ficam revogadas as disposições em contrário".

Não é que seja mau ter um lugar na Câmara. Tomara eu lá estar. Não posso; não entram ali relojoeiros. Poetas entram, com a condição de deixar a poesia. Votar ou poetar. Vota-se em prosa, qualquer que seja, prosa simples, ruim prosa, boa prosa. bela prosa, magnifica prosa, e até sem prosa nenhuma, como o Sr. Dias Carneiro, para citar um nome. Os versos, quem os fez, distribui-os pelos parentes e amigos e faz uma cruz às musas. Alencar (e era dos audazes) tinha um drama no prelo, quando foi nomeado ministro. Começou mandando suspender a publicação; depois fê-lo publicar sem nome de autor. E note-se que o drama era em prosa...

Suponhamos que Luís Murat saia eleito, e que seu rival, o Augusto Teixeira é que ficava com os quarenta votos. Com certeza, os versos de Murat não passavam a ser feitos pelo Teixeira, e era talvez, uma vantagem. Em todo caso. ficávamos sem eles. Onde estão os do Dr. Afonso Celso? José Bonifácio, se os fazia. enterrava-os na chácara. . . Podia citar outros, mas não quero que a Câmara brigue comigo.

Vá lá abraço, e adeus. Agora é arrazoar de dia no escritório de advogado, e versejar de noute. Não fazem mal as musas aos doutores disse um poeta podem fazê-lo aos deputados.

(continua...)

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