Por Machado de Assis (1994)
CAMÕES. E não choro, não; não choro... não quero... (Forcejando por ser alegre) Vedes? até rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, Ásia é melhor; lá rematou a audácia lusitana o seu edifíclo, lá irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta quimera, esta cousa que me flameja cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho, Senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes navegados, uma figura rútila, que se debruça dos balcões da aurora, coroada de palmas indianas? É a nossa glória, é a nossa glória que alonga os olhos como a pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o ósculo que a fecunde; nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da Imortalidade, para dizê-la aos quatro ventos do céu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz) Nenhum... (Pausa, fita D. MANUEL como se acordasse e dá de ombros) Uma grande quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.
* O DESFECHO dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde é o objeto da comédia, desfecho que deu lugar à subseqüente aventura de África, e mais tarde à partida para a Índia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos. Não pretendi fazer um quadro da corte de D. João III, nem sei se o permitiam as proporções mínimas do escrito e a urgência da ocasião. Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e, por assim dizer, póstumas.
Na primeira impressão escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma cousa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Camões ao Duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe não possa fixar data, usara desta por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: "Engana-se, creio eu, o Sr. Teófilo Braga, quando afirma que ela só podia ter ocorrido depois do regresso de Camões à Lisboa, alegando, para fundamentar essa opinião, que o título de Duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o ilustre escritor, porque eu encontro o Duque de Aveiro, cinco anos antes, em 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa, D. Joana, noiva do príncipe D. João (veja Mem. e Doc., anexos aos Anais de D. João III, pp. 440 e 441); e, se Camões só em 1553 partiu para a Índia, não é possível que o epigrama e o caso que lhe deu origens fosse anteriores".
Temos ambos razão, o Sr. Teófilo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro só foi criado formalmente em 1557, mas o
agraciado usava o título desde muito antes, por mercê de D. João III; é o que confirma a própria carta régia de 30 de agosto daquele ano. Textualmente inserta na Hist. Geneal, de D. Antonio Caetano de Sousa, que cita em abono da asserção o testemunho de Andrade, na Crônica Del-Rei D. João III. Naquela mesma obra se lê (liv. IV, cap. V) que em 1551, na translação dos ossos del-rei D. Manuel estivera presente o Duque de Aveiro. Não é, pois, impossível que a anedota ocorresse antes da primeira ausência de Camões.
M. DE. A.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.