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#Contos#Literatura Brasileira

Quem não quer ser lobo...

Por Machado de Assis (1872)

— Mas enfim que quer o senhor?

Alves assumiu um ar melancólico, e respondeu:

— Que o senhor me indenize da perda que sofro em não casar com aquele anjo. Coelho não podia cair em si. Alves falava com tanta segurança, que era impossível não supor nele uma resolução inabalável.

— Então, quer liquidar esse negócio comigo?

— Creio que o senhor não fala sério.

Coelho começou a refletir. Não lhe convinha ter por -inimigo um homem, cuja audácia se manifestara já tão singularmente. Tratou de ladear a questão.

— Eu não hesitaria em socorrê-lo, disse ele, caso o senhor precisasse, mas confesso que não possuo nada.

Alves sorriu.

— Há de possuir.

— Mas...

— Eu não venho pedir-lhe socorro, mas uma indenização. Saibamos de uma coisa antes de tudo: adota essa indenização em princípio?

— Em princípio, nego-lha.

— Ah!

Houve um silêncio.

— Está bem, disse Alves, deixemos os princípios; vamos aos fatos. Está pronto a dar ma?

— Mas, senhor, isto é uma ladroeira, disse Coelho, levantando a voz para que o moleque o ouvisse.

— Não, senhor, é uma indenização.

— Pois bem, disse Coelho, depois de alguns instantes de reflexão. Vejamos as suas condições.

— Bravo! vejo que nos entendemos. As minhas condições são: dez contos de réis pagos dois meses depois do seu casamento.

— Dez contos! exclamou Coelho.

— Sem lhe rebater um real; é largar ou pegar. Não é mau; o senhor deve entrar na posse

de uns cem contos de réis pelo menos, além das esperanças; e nega uns pobres dez contos a quem lhe cede o lugar?

— Nada, não lhe dou um vintém, disse resolutamente Coelho.

— Sério?

— Sério.

— Olhe lá.

— Já disse; não lhe dou um vintém. Isto seria ridículo se não fosse infame. Peço-lhe que se retire.

Alves soltou uma gargalhada, pôs o chapéu na cabeça, cumprimentou o dono da casa e saiu dizendo:

— Até à vista.

IX

AH!

Coelho respirou apenas se viu só. Repetiu ao moleque a ordem que lhe havia dado e preparou-se para dar boas notícias à noiva.

Logo nessa noite, estando com ela, falou na estranha visita que lhe fizera Alves.

— Sabes quem foi hoje à minha casa?

— Quem foi?

— O Carlos Alves.

— Ah! disse ela empalidecendo.

— Não o recrimino por isso; sei que foi o teu primeiro namorado. Quero só dizer-te que escapaste de uma infâmia.

— Como?

— Aquele homem não era digno de ser teu marido, continuou Coelho; era um infame. Se soubesses o que praticou comigo...

Lúcia estava perturbada com o assunto da conversa.

— Falemos de outra coisa, disse ela.

— Compreendo o teu melindre, e respeito-o. Depois de casado, contar-te-ei tudo. Não imaginas... Queria casar contigo por interesse.

Lúcia arregalou os olhos.

— Deveras? disse ela.

— É verdade; teve o descaramento de o confessar; é um cínico. Eu te contarei tudo depois.

A conversa não passou além.

Correram os dias sem novidade. Aproximou-se o dia do casamento. Ypsilanti queria dar um banquete, que o noivo aprovou, mas a mulher e a sobrinha foram de opinião que o casamento à capucha era melhor.

— Pois vá à capucha, disse o grego.

Na véspera do casamento, o noivo deu parte a dois ou três amigos íntimos, e foi dar a última vista de olhos na casa. A casa estava ornada com certo luxo, para o qual teve Coelho de pedir algumas somas emprestadas. De noite, foi à casa da noiva, mas voltou cedo para descansar e dar umas últimas providências.

Não se admirou pouco de ver a sala com luz, coisa que não havia durante a sua ausência.

— Há de ser alguma visita, pensou ele.

Subiu as escadas.

Céus!

Era Alves!

O ex-namorado de Lúcia estava assentado no sofá brincando com uma bengala. Defronte dele, estava o moleque pedindo-lhe que saísse.

— Entra a propósito, disse Alves, o seu moleque conhece pouco os deveres de

hospitalidade. Quer pôr-me fora daqui. Diga-lhe que é uma grosseria. Coelho fez um sinal ao moleque, que se retirou.

Apenas ficou só com o ex-rival, disse:

— Sr. Alves, há de convir que isto vai passando os limites, não estou disposto a sofrer as suas importunações, já lhe disse que...

— O senhor disse-me que não me daria os dez contos de réis, cuidei que estava brincando, porque, na situação em que o senhor se acha, só por brincadeira pode dizer uma monstruosidade de tal calibre. Os dez contos hão de vir ter às minhas mãos.

— Ameaça-me?

— Não ameaço; discuto. Não quer pagar-me a indenização que lhe peço? É um desejo impossível de satisfazer. Vou dizer a razão.

E metendo a mão no bolso tirou um papel.

— Sabe o que é isto?

— Não.

— É uma carta.

Coelho levantou os ombros.

— Uma carta de sua noiva.

— Ah!

— Se o senhor me não der o dinheiro, publico-a.

— Mas isto é uma...

— É uma defesa. Quer ler a carta?

Coelho fez um gesto de recusa.

— Há de confessar, disse este, que o senhor é muito infame!

— Mais talvez do que o senhor pensa; disse tranqüilamente Alves; não tenho só esta carta; tenho mais trinta e sete cartas, cada qual mais ardente. Imagine o efeito desse regimento epistolar em letra redonda. É coruscante.

— Basta, disse Coelho; sacrifico-me, já que é preciso. que condições quer?

— Já lhe disse: dez contos de réis a pagar daqui a dois meses. Trago a letra.

— É previdente.

— A previdência é a mãe da vitória.

(continua...)

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