Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Mas o amigo insistiu; que não fazia mal experimentar, era sempre uma tentativa, que diabo!

Enfim, o ilustre engenheiro decidiu-se; foram combinados dia e hora e a sessão realizou-se em uma casa da Rua D. Polixena, em Botafogo.

O medium, um conhecido jornalista vidente, de óculos e barbas negras, invocou o espírito do Visconde de Mauá, fundador das estradas de ferro no Brasil, e este, apresentando-se, teve esta frase:

— Que queres tu, Pombal?

O Sr. Frontin ficou surpreso e começou a empalidecer.

Em torno, os circunstantes não dissimulavam o espanto.

— Pombal? Por que Pombal?

Nova invocação foi feita; e o espírito, já desta vez irritado, escreveu pela mão do medium:

— Ora, Pombal, não me amole!

Era baldado insistir; ou o espírito estava enganado ou era algum brejeiro (que lá por cima também os há) que queria fazer espírito.

Pelo sim pelo não, foi chamado D. José I para deslindar aquele embrulho.

O mofino monarca apresentou-se sem demora, tratando o Sr. Frotin pelo nome de seu dominador ministro.

O medium pediu-lhe explicações; e D. José, sem se fazer rogado, declarou que efetivamente o Conde de Oeiras encarnara no diretor da Central e que estava na terra a expiar as passadas culpas; que os desastres o haviam de perseguir por toda a vida e que assim como Sebastião José reconstruíra Lisboa, assim também André Gustavo seria o encarregado de reconstruir o Rio de Janeiro.

A propósito do subterrâneo do Castelo nada disse o espírito; mas fácil é concluir que, tendo sido Pombal o predestinado a tornar efetiva a expulsão dos jesuítas e a confiscar-lhes os bens, era justíssimo que, na segunda encarnação, reparasse o mal, descobrindo os seus tesouros ocultos e distribuindo-os com os pobres.

Era esmagadora a conclusão; realmente a carta régia de 4 de novembro de 1759 não podia ficar sem conseqüência nos fastos da Humanidade.

E há de ter lá pelo Castelo mais pessoal daquela época; concluiu o Sr. Coelho.

— Quem nos poderá garantir que o engenheiro Pedro Dutra não é o Conde de Bobadella?

Os fatos no-lo dirão.

Continuaremos amanhã a narrativa da nossa entrevista com o Sr. Coelho e dos extraordinários casos que se contêm nos seus velhíssimos papéis.

Por hoje, informemos aos leitores do estado da galeria atualmente explorada.

Tem ela, como é sabido, dois lances que se encontram em ângulo obtuso e está iluminada a luz elétrica, o que lhe dá uma tenue mais com o século.

O segundo trecho esbarra num poço cheio d’água até a borda; é quase certo que este poço não é mais que a descida para outra galeria de nível mais baixo, coisa fácil de concluir pelo seguinte fato:

Nas paredes do subterrâneo vêem-se, de espaço a espaço, provavelmente destinados a colocação de lâmpadas no tempo em que foi este construído e de certo ponto em diante estes nichos vão descendo, acompanhando sempre o declive da galeria, de modo que o último avistado está à flor d’água do poço que o delimita.

O Dr. Dutra vai tratar de dessecá-lo e então ficará este ponto esclarecido.

Ontem, às 2 horas da tarde, foram as galerias visitadas pelos srs. intendentes municipais que lá se demoraram cerca de duas horas, recebendo do Dr. Dutra de Carvalho todas as explicações.

Os dignos edis mostraram-se entusiasmadíssimos com os trabalhos de engenharia tão bem executados pelos jesuítas.

A galeria, franqueada ao público, tem sido extraordinariamente concorrida, entre os comentários mais estranhos e cômicos dos viajantes; sobem a três mil o número de curiosos que ontem lá estiveram.

Correio da Manhã - segunda-feira, 8 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

Os Tesouros dos Jesuítas—Uma Narrativa de Amor

O Velho Códice

Entre os preciosos documentos pertencentes ao nosso precioso informante, e de cujo conteúdo temos transmitido aos leitores a parte de que ele não faz absoluto segredo, ressaltam algumas narrativas da época, sobre casos de que foram teatro os subterrâneos do morro do Castelo, narrativas estas que, pelo seu requintado sabor romântico, bem merecem a atenção do público carioca, atualmente absorvido em conhecer nos mínimos detalhes a história daquela época legendária.

O grande Martius, cujos trabalhos sobre a nossa natureza e sobre a etnografia sul-americana merecem o aplauso dos institutos sábios de todo o mundo, faz notar que no Brasil as lendas sobre tesouros ocultos substituam as dos sombrios castelos medievos que são o encanto dos povos ribeirinhos do Danúbio e, sobre os quais grandes gênios da arte têm bordado obras de um pichoso lavor estético em todos os moldes da fantasia humana, seja a música, a pintura, a poesia ou o romance.

Uma tradição velhíssima tem alimentado entre nós no espírito do povo a idéia da existência de tesouros enterrados, dormindo há séculos sob pesadas paredes de monastérios, resistindo à argúcia de olhares perscrutadores e acirrando a curiosidade e a cobiça de seguidas gerações.

Algo de real existe certamente em meio às exagerações da lenda; documentos antigos falam dessas riquezas e indicam mesmo, com relativa precisão, os pontos em que se acham elas ocultas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →