Por Adolfo Caminha (1896)
Os aristocratas que não tinham podido acompanhar o monarca a Petrópolis bufavam de calor, e, à porta dos jardins ou à janela, iam refrescar o sangue, os pulmões, como o desembargador Lousada. Ao anoitecer, recolhiam à frescura do linho, pensando na volta das andorinhas imperiais.
D. Branca executou ao piano uma valsa de Strauss, para Adelaide ouvir. Tocava bem, na opinião de vários professores ilustres; já se exibira em concertos de primeira ordem.
Quando as tardes eram demasiado quentes, iam os dois casais arejar à praia, onde passeavam famílias numa liberdade encantadora, trajando garridamente suas roupas de verão, sem luxo, sem cerimônia, parando à sombra das árvores, em grupos, vendo deslizar em pequeninas embarcações de recreio na água cintilante. Que bom! Adelaide examinava tudo com essa curiosidade infantil dos recémchegados, comparava as toilettes, as fisionomias, lendo histórias mundanas no sorriso dos rapazes e na franqueza das raparigas, que se entrecruzavam piscando os olhos à vista dos homens sérios. Como tudo aquilo tinha um encanto particular! Como tudo era novo para ela! Sentia nalma um remoçar impetuoso, uma vontade de possuir jóias com que se enfeitar, com que realçar a sua beleza, e toilettes de luxo, à última moda, e essências caras, embriagantes, e tudo o mais que seus olhos viam, desde que ela pusera os pés no Rio de Janeiro.
D. Branca enchera-lhe os ouvidos de tanta coisa, meu Deus! de tanta história! — Que no Rio de Janeiro as mulheres timbravam em se apresentar cada qual mais bem vestida; que Botafogo era o bairro da aristocracia e do bom gosto; que o luxo nada tinha com a honestidade de uma senhora, desde que ela se portasse bem..., ao menos aparentemente; que, enquanto se era moça, devia-se gozar, levar a vida rindo, passeando, nos bailes, nos concertos, nos teatros; que os homens eram muito egoístas; enfim, Senhora D. Branca despertara nela um sentimento novo, que lhe abafava toda a nostalgia da província e deixava-a oscilando, remoendo, entre a vida simples e calma de burguesinha honesta e a vida tumultuosa de mulher elegante e adorada nos círculos aristocráticos de uma cidade como o Rio de Janeiro.
Enquanto Evaristo aborrecia-se — ele, que falava tanto da província: "porque a província era o statu quo, a imobilidade, o abandono" - ela deliciava-se agora, em plena Corte, em pleno Botafogo, cheia de vida e de ambições, a exemplo de D.
Branca e de outras senhoras, que, sem desprezar os maridos, gozavam quanto podiam, vestindo-se bem, trajando com elegância, ostentando beleza e mocidade aonde quer que se apresentassem. Nos primeiros dias estranhara o Rio, achara tudo falso, tudo superficial, tudo para enganar os olhos. Agora, não: tudo impunha-se ao seu espírito como um dever, como uma necessidade lógica e humana.
E sempre que ia à praia, sempre que ia a um teatro, a um passeio, voltava triste, desalentada, com uma dor no coração... Não poder "como as outras" ostentar o frescor dos seus vinte anos, aparecendo nas rodas elegantes, de braço com o Evaristo – ele todo nobreza, todo modernismo, aristocraticamente enluvado; ela chique, numa pompa de rainha, um sorriso à flor dos lábios - os dois em carruagem aberta ou num camarote do Lírico! Oh, não poder gozar, como as outras mulheres que ela via, deslumbrada e abatida, da sua pobreza honesta, da sua triste posição de mulherzinha dócil, de esposa exemplar!
Aquilo ia calando em seu espírito, onde um princípio de orgulho feminino brotava ocultamente.
Evaristo ganhava pouco ainda, o essencial para se ir mantendo com alguma independência, sem dever a ninguém. Era inimigo de contrair dívidas; um alfinete, que comprasse, havia de ser pago logo, na ocasião mesma do negócio; por forma que o dinheiro do Banco, o ordenado, ia-se num abrir e fechar de olhos, para a mão do homem da venda e para o bolso do alfaiate. Ele próprio conservava a roupa que trouxera da província; não tinha luxo, nem jóias de valor. Afinal não passava — como dizia — de um pobretão mísero, empregado subalterno. D. Branca podia luxar, aparecer — não era admiração; o Luís ganhava tanto como oitocentos mil-réis, fora a renda das apólices que possuía no Tesouro e de umas açõezinhas do Banco Industrial. Onde, pois, a admiração? Nenhuma. Feria-lhe também o amor-próprio de marido extremoso ver Adelaide, a sua Adelaide, com os mesmos vestidos, com o mesmo chapéu, sem um brilhante, uma jóia de ouro, envergonhada no meio das outras. — Mas... que se havia de fazer? Por isso é que desejava ter uma casinha na Cidade Nova, "um albergue", de cinqüenta mil-réis, longe desse rumor de etiquetas e ostentações. Um dia pra diante, quando pudesse — muito bem! alugava um chalé em Botafogo e Adelaide não tinha de que baixar a cabeça às exigências do high-life. Por enquanto a palavra de ordem era — economia, muita economia!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.