Por Adolfo Caminha (1895)
Contava então cerca de trinta anos e trazia a gola de marinheiro de segundaclasse. Por sua vontade não sairia mais barra fora: em dez anos viajara quase o mundo inteiro, arriscando a vida cinqüenta vezes, sacrificando-se inutilmente. — Afinal a gente aborrece... Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol, passa noites acordado, atura desaforo de todo mundo, sem proveito, sem o menor proveito! O verdadeiro é levar a vida “na flauta”...
Nessa viagem Bom-Crioulo não foi mais feliz que nas outras. Nomeado gajeiro de proa, espécie de fiscal do mastro do traquete, a princípio dera conta irrepreensivelmente de suas obrigações e podia-se ver o asseio e a boa ordem que reinavam ali, desde a borla do tope té embaixo à chapa das malaguetas. Fazia gosto a presteza com que se efetuavam as manobras. A faina corria sempre na melhor ordem, livre de acidentes, como se todo o mastro fosse uma grande máquina movida a vapor, desafiando a gente dos outros mastros.
Agora, porém, de torna-viagem as cousas tinham mudado. O traquete era um dos últimos a estar pronto, havia sempre um obstáculo, uma dificuldade: era um cabo que “pegava”, um “andarivelo” que se partia ou cousa que faltava...
— Anda com isso! bradava o oficial do quarto já impaciente.
E só depois de muito tempo é que o Bom-Crioulo anunciava lá de cima do mastaréu, com a voz estragada:
— Pronto!
Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder “o negro”, outros, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês que “se metera” com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheirito de olhos azuis, que embarcara no sul. — O ladrão do negro estava mesmo ficando sem vergonha! E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos... Era muito homem para esmagar um!
O próprio comandante já sabia daquela amizade escandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no olhar certa prevenção de quem deseja surpreender em flagrante...
Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitas vezes riam maliciosamente na praça d’armas entre copos e limonadas.
Tudo isso, porém, não passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo, o rosto largo de um prognatismo evidente, não se incomodava com o juízo dos outros. — Não lho dissessem na cara, porque então o negócio era feio... A chibata fizera-se para o marinheiro: apanhava até morrer, como um animal teimoso, mas havia de mostrar o que é ser homem!
Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas a espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a BomCrioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante cousa, nunca homem algum ou mulher produziralhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã.
Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, e quis saber como ele se chamava.
— Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando o olhar, muito calouro. — Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Crioulo.
E imediatamente, sem tirara vista de cima do pequeno, com a mesma voz branda e carinhosa:
— Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, não se esqueça. Quando alguém o provocar, lhe fizer qualquer cousa, estou aqui eu, para o defender, ouviu?
— Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olhar com uma expressão de agradecimento.
— Não tenha vergonha, não: Bom-Crioulo, gajeiro da proa. É só me chamar.
— Sim senhor...
— Olhe mais, tornou o negro segurando a mão da pequeno: — Muito sossegadinho no seu lugar para não sofrer castigo, sim?
Aleixo só fazia responder timidamente: — Sim senhor — com um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos.
Era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito assentar praça em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho. Seu trabalho a bordo consistia em colher cabos e arear os metais, quando não se ocupava na ronda pela noite.
Bom-Crioulo metia-lhe medo a princípio, e quase o fizera chorar uma vez porque o encontrara fumando em intimidade com o sota de proa na coberta. O negro deitara-lhe uns olhos!... Felizmente não aconteceu nada. Mas daí em diante Aleixo foi-se acostumando, sem o sentir, àqueles carinhos, àquela generosa solicitude, que não enxergava sacrifícios, nem poupava dinheiro, e, por fim, já havia nele uma acentuada tendência para Bom-Crioulo, um visível começo de afeição reconhecida e sincera.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.