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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Tempos depois vira-a em sonho, numa nuvem de incenso, cercada de anjos com um manto azul recamado de estrelas, subindo para o céu... Por sinal acordou sobressaltada, chamando pela madrinha, encolhendo-se toda na rede, fria de medo. Dias depois Mendonça embarcara para o norte. Ainda acabrunhado pelo desgosto que lhe trouxera a morte quase repentina da mulher, manifestou a João da Mata desejos de ir tentar fortuna onde quer que fosse. Não podia continuar no Ceará, viúvo e ocioso, de braços cruzados, sem dinheiro, olhando para o tempo, decididamente não podia continuar. Mas, havia uma dificuldade — a Maria. Se o compadre quisesse tomar a menina, encarregar-se de sua educação, mediante uma mesada, um pequeno auxílio...

O amanuense aceitou. Que fosse imediatamente para o norte. A vida no Ceará não valia coisíssima alguma. O Pará, sim, aquilo é que é terra de fartura e de dinheiro. Um homem trabalhador e honesto, como o compadre, com um pouco de experiência, podia enricar da noite para o dia. Os seringais, conhecia os seringais? eram uma mina da Califórnia. Tantos fossem quantos voltavam recheados, de mão no bolso e cabeça erguida. E o Ceará? Fome e miséria somente. Num mês morriam três mil pessoas, eram mortos a dar com o pé, morria gente até defronte do palácio do governo, uma lástima!

E acrescentou que o Ceará era boa terra para os políticos e ricaços, que o pobre em Fortaleza, ainda que pesasse quilogramas de honradez era sempre o pobre, maltratado, espezinhado, ridicularizado, perseguido, enquanto que o indivíduo mais ou menos endinheirado podia contar amplamente, largamente (e abria os braços) com a simpatia geral: tinha ingresso em todos os salões, em toda a parte, até no “santuário da família” fosse ele, embora, um patife, um grandíssimo canalha. Usava chapéu alto e gravata branca? Tinha um título de bacharel? Não fizesse cerimônia, podia entrar onde quisesse — “Uma terra de famintos, seu compadre! Fome, miséria e patifaria era o que se via.” — Com a Maria do Carmo não tivesse cuidado; ele, João da Mata, havia de tratá-la como filha, não lhe faltaria nada; teria para ela todas as carícias, todos os afagos de um pai. Mendonça podia mesmo demorar o tempo que quisesse no Pará, anos, séculos... a menina ficava em casa de gente séria, pobre, é verdade, mas honrada.

Daí a dias, um domingo de muito sol e muito vento, realizou-se o embarque do capitão Mendonça e do Casimiro.

Os conselhos de João calaram poderosamente no ânimo forte e resoluto do sertanejo cuja confiança no compadre era ilimitada. Sabia-o conhecido em quase todo o Ceará, estimado mesmo por pessoas de bem, admirava-lhe muito o “coração generoso” e democrata, por tal forma que João se lhe afigurou o único homem capaz de concorrer para a felicidade de sua filha — reflexões nascidas de boa-fé e da experiência da vida social, que enchiam de íntima e doce consolação a alma ingênua e simples do sertanejo.

Mendonça conhecia Fortaleza superficialmente; suas viagens à capital tinham sido raríssimas; viera vezes contadas a negócio. Sabia os homens propensos ao mal, por mais duma vez ele próprio fora vítima da ingratidão de indivíduos que se diziam seus amigos e a quem fizera grandes benefícios; porém, a vida ruidosa e dissoluta das capitais, esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e vícios inconfessáveis, esse tropel de paixões desencontradas, isso que constitui, por assim dizer, a maior felicidade do gênero humano, esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse cortiço de vespas que se denomina — sociedade, desconhecia-o ele e nem sequer imaginava. Lá, no seu tranqüilo recanto de Campo Alegre, onde só de longe em longe chegava o eco da vida elegante, ouvira falar em mulheres que traíam os maridos, filhos que assassinavam os pais, incestos de irmãos, homens que negociavam com a própria honra... e tudo isso parecia-lhe simples “invenção das gazetas”, romances de sensação que ele ruminava devagar e esquecia depressa.

— “É uma grande alma aquele Mendonça!” admiravam os amigos.

E era-o.

Resolvera como que recomeçar a vida, esquecer o passado, recuperar o tempo perdido, trabalhando como um mouro, entregando-se ao labor com todas as suas forças, dia e noite, sem descanso, nas florestas do Pará.

E lá se fora barra fora, mais o Casimiro, na proa dum vapor brasileiro, honrado e obscuro, no meio de dezenas de emigrantes que, como ele, iam fazer pela vida até... sabiam lá!...

Antes de embarcar teve cuidados maternais para a filha. Comprou peças de chita, rendas, fitas, bugigangas, fantasias, tudo escolhido, tudo bom, e uma maleta americana. Chamou-a à parte, beijou-a na testa e disse-lhe com os olhos cheios d’água e a voz trêmula “que o papai havia de voltar se Deus quisesse, que ela fosse boa e obediente aos padrinhos, que estudasse, estudasse muito, porque era feio uma mulher ignorante, e, finalmente, que não esquecesse de rezar por alma da mamãe”...

Maria lembrava-se de tudo.

Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos.

(continua...)

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