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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Se não fosse o diacho da centralização, acrescentara o Fonseca não teriam dado o dinheiro a padre José lá na capital. Teria vindo, como devia ser, por intermédio da coletoria, e eu saberia bem o que havia de fazer. Mal qual! Os homens da capital querem tudo fazer por si, e o resultado foi aquela comezaina!

E terminou, em tom grave :

— Uma falta de patriotismo!

Padre Antônio ouvira aquelas maledicências com que o coletor o adulava, abanando a cabeça, muito admirado. Pedira ao Macário que lhe confirmasse a veracidade daquela história, e o sacristão, cheio de si, cara tristonha, confirmara. O coletor, triunfante, concluíra:

— Ora aí está. A verdade manda Deus que se diga. Em matéria de dinheiros públicos sou intransigente.

O José Antônio Pereira, por entre os dentinhos podres, murmurou, lisonjeiro:

— V.S.a é o exemplo dos exatores do Amazonas.

Examinada a igreja, pedira padre Antônio que lhe mostrassem os sagrados paramentos, que o Macário pachorrento, lhe fora tirar duma cômoda velha de cedro deslustrado. Outra miséria. Duas capas velhas, rotas, sem brilho, pingadas de cera amarela; uma sobrepeliz esburacada, umas estolas já sem cor; uma alva desmentindo a candidez do nome, tudo com uma aparência triste, velha, de roupa sem préstimo tresandando a cânfora e a excremento de rato. Os seus hábitos de asseio repeliram a idéia de envergar aquela fatiota suja e indecente de padre relaxado. Formara, desde logo, in petto , o projeto de encomendar uns paramentos novos e seus, com o primeiro dinheiro que pudesse haver do pai, e, se tanto fosse preciso, escreveria ao padrinho, pondo em contradição para o caso o seu espírito religioso e a sua amizade incansável.

Notara com igual tristeza o estado das alfaias e vasos sagrados, e, contemplando o velho cálice de prata dourada, oxidada e gasta, arrepiara-se todo de repugnância e nojo, pensando descobrir em que lugar colaria os lábios, que já não tivesse sido mil vezes babujado por uma série de padres velhos sifilíticos e escorbúticos. Não tinha a caridade extrema e inútil de S. Francisco Xavier no hospital de Veneza. Era necessário cuidar, desde já, em mandar vir do Pará um cálice novo para o seu uso particular.

O presidente da Câmara, alferes Neves Barriga, oferecera-lhe de almoçar, uma refeição simples mas abundante, que o seu estômago, acostumado à magra pitança do seminário, achara excelente. O almoço fora dado na casa da Câmara, porque o Neves não tinha casa na vila e estava de hóspede duma parenta pobre. Comera padre Antônio com bom apetite, para mostrar que não era de cerimônia. A senhora D. Eulália ficara encantada. Não cabia em si de contente pela honra que lhe fazia o senhor vigário, comendo o seu tucumaré cozido, com molho de limão e pimenta, e a sua galinha de cabidela, banhada em louro e açafrão.

D. Eulália, andando da sala do banquete para a improvisada cozinha, enxugando o suor do rosto com a manga do paletó de musselina branca, não se cansava de lhe fazer elogios. Parecia uma boa velha, coitada!

O Neves, enterrando os dedos na grande caixa de rapé, dizia, com a sua cara de carneiro manso:

— Eu, por meu gosto, morava, mas era só na vila. Isto aqui sempre é outra coisa. Há gente com quem conversar, há recursos, vêem-se caras novas. Mas a D. Eulália, coitada! não quer deixar os xerimbabos!

Depois concluía, para convencer os convivas:

— Por isso é que eu aturo o sertão do Urubus. É um sacrifício que a D. Eulália não paga.

A conversação versou sobre a moradia nos sítios do sertão. O Neves dizia-se amigo dos centros populosos. O Fonseca abundava mesmas idéias:

— Isto de roça não é comigo. Preciso ver gente todos os dias. Para um homem inteligente, o sertão é uma sepultura.

Padre Antônio gabara as vantagens dos lugares ermos para a meditação e o estudo. Amava a grande solenidade das florestas virgens, a solidão tranqüila dos rios sertanejos, a vasta campina silenciosa e triste.

O Valadão e o vereador João Carlos eram de parecer contrário, e concordavam inteiramente com o senhor capitão Fonseca. Não poderiam viver no ermo. Precisavam de movimento e de vida.

— Eu até acho Silves pequena e triste, cuspira, numa tosse convulsa, o Valadão, esgrouviado e tísico.

O coletor, porém, defendera a vila:

— Sim, não direi que Silves seja tão alegre como a Barra, nem tão grande como a capital do Pará, mas enfim... há vilas piores, que digo! há cidades que não valem a nossa interessante vila. Temos um bom porto, muitas casas de telhas, e a coletoria rende tanto como a de Serpa. Se a nossa Matriz não está consertada, a culpa é do defunto vigário que Deus haja...

— Temos boas lojas, disse o vereador João Carlos.

— A esse respeito, observara o José Antônio Pereira, basta olhar para Vila Bela e fazer a comparação. Lá não há senão a loja do Pechincha! concluiu, vitorioso, por entre os dentinhos podres.

Todos mostraram desprezo pela loja do Pechincha.

Enfim! exclamara o coletor em tom profundo, temos uma coisa em que levamos vantagem às grandes capitais.

— Temos moralidade, concluíra com aplausos gerais.

(continua...)

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