Por Domingos Olímpio (1903)
Nisto ouviram vozes e tropel humanos. Teresinha vestiu-se às pressas. Era o triste cortejo da faxina diária da cadeia. Dous presos, ligados pelo pescoço por comprida corrente de ferro, carregavam pendurada de um caibro, polido pelo uso, a grande cuba contendo os dejetos da véspera, para despejá-los, longe da cidade, à margem do rio, nas vazantes onde, em tempos prósperos, medraram melões e melancias. Acompanhava-os uma escolta de soldados, da qual se destacou Crapiúna, que se dirigiu às duas moças com maneiras de afetada severidade.
— Então, suas vadias! Estão a sujar a água que a gente bebe? ... Corja de porcas... estas retirantes ... Ai, Jesus! ... Não tinha reparado na sra dona Luzia, milagrosa santa dos meus olhos pecadores...
— Deixe a gente sossegada, seu Crapiúna – atalhou Teresinha.
Siga o seu caminho e não se importe com o que não é da sua conta...
— Não estou falando contigo, tábua de bater roupa. O meu negócio é com esta feiticeira soberba que furtou meu coração...
— Você diz isto – replicou Teresinha – é por estarmos aqui sozinhas. Soldado relaxado...
— Olha – retrucou Crapiúna enfurecido – Toma a bênção ao furriel que está ali na escolta. Se eu não estivesse de serviço te ensinava quem é relaxado, cachorra....
— Cachorra é tua mãe, cabra safado...
A esta injúria Crapiúna cerrou os punhos, num gesto bruto de ameaça; mas , à chamada do furriel, teve de partir, dirigindo à moça uma praga obscena.
— Deixa estar que me pagarás. Esta não caiu no chão.
Voltando depois para Luzia, tremula e confusa, inanida de surpresa e vergonha, acrescentou, requebrando os olhos congestionados:
— Adeus, meu bem ... Tenha pena de seu mulato... Me responda; faça uma fezinha para me consolar o peito, sua ingrata... Ai, ai, coração!...
Luzia continuava a preparar, automaticamente, a rodilha, não ousando, erguer os olhos para o sinistro homem.
— O demônio te carregue, peste – resmungou Teresinha quando Crapiúna se reuniu à escolta – Tu só prestas para carregar porcaria de preso. Por estas e outras é que eu não ando de mãos abanando. Era encrespar-se para mim aquele excomungado, metia-lhe no bucho este canivete até o cabo.. .
— E tinha corarem? — perguntou Luzia encarando na franzina moça e na fina lâmina da arma, que ela trazia oculta no cós da saia.
— Ora, ora, ora! ... Fisgava-o sem dó nem compaixão. Não me importava de ser presa, nem tenho a vida para negócio ... desgraça por desgraça... Ah! minha camarada, já sofri tudo de ruim deste mundo; passei por vexames e desgostos... Só lhe contando isso por miúdo ... Deixe estar que os desaforos daquele cabra miserável não caíram no chão. Paga-me mais cedo ou mais tarde, tão certo como chamar-me Teresa de Jesus...
— Ferir, matar um homem! ... Seria horrível.
— Qual horrível, qual nada. Já vi gente morrer à minha vista. Não foi uma nem duas criaturas. Tivera eu a sua força, não precisaria de arma: quebrava-lhe a cara safada que ficaria a panos de vinagre. Quando ele me dissesse alguma liberdade, dava-lhe tamanho tabefe...
— Vamos que são quase horas de ir para a obra... Ah! nem me lembrava que hoje é dia santo. .. Esta minha cabeça...
— Olhe para mim, Luzia; mire-se no meu espelho Eu já lhe quero bem, como parente minha, por isso falo-lhe assim. Veja como estou pagando os meus pecados; veja a minha desgraça e a quanto estou sujeita...
— É pena, você, uma moça branca, andar assim na vida ...
O céu pálido clareava, e a aurora, que irrompia, punha nas coisas o rúbido fulgor das suas pompas. Ranchos de mulheres e de meninos macilentos se endireitavam à cacimba; e, falando e rindo, os pequenos, quase nus, sacudidos por quintos de tosse rouca, levavam grandes cabaças para colherem o precioso líquido, ainda nas entranhas da terra ressequida e flagelada.
CAPÍTULO V
Mal restabelecida da comoção do encontro com Crapiúna, Luzia sentia-se humilhada pelos grosseiros galanteios que ele lhe dirigira sem o menor rebuço, com desabrida petulância e desenvoltura sensual, como se ela fora uma dessas desgraçadas, cujo acesso não é já resguardado pelo prestígio da virtude. Pouco atenciosa à incessante tagarelice de Teresinha, e remordida pela afronta, meditava na turra de Alexandre com o soldado, persuadida de que a defesa de Quinotinha fora o pretexto para a explosão do ódio latente. Seu coração estremecia, vacilante, à idéia de um conflito entre os dois homens, e o júbilo de sentir-se amparada por dedicação superior a todos os sacrifícios.
E flutuava nesse consolador eflúvio de reconhecimento, arrebatada à região dos sonhos, das coisas ideais, sobranceiras ao pélago da tristeza e sofrimentos humanos.
Quando chegou a casa, e depôs o grande pote sobre as três garras de uma forquilha de sabiá, fincada no solo, a mãe, sentada à rede armada a um canto do quarto, gemia, à surdina, em atitude de vítima resignada ao martírio da implacável moléstia.
— Sua bênção, mãezinha?
— Bênção de Deus, filha. Vens tão cansada. Teimas em carregar água nessa jarra... Estás a botar a alma pela boca...
— Não é o peso do pote ... São pesares...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.