Por Machado de Assis (1871)
O comendador continuava de pé, com os olhos no filho, que ficou justamente em frente dele. Jorge, depois de assestar o binóculo à cena e alguns camarotes, assentou-se preguiçosamente na cadeira, e foi então que viu o pai.
Estremeceu.
Silvestre não lhe tirava os olhos de cima. Duas vezes, Jorge afastou os seus, mas duas vezes os dirigiu de novo ao pai, até que, levantando-se, pegou no chapéu e saiu. Aguiar não esperou que acabasse o espetáculo.
Voltou para casa, perguntou se o filho já havia chegado; responderam-lhe que sim. Mandou-o chamar ao seu quarto, e o rapaz não se deteve; foi ter com o pai e arrojou-se lhe aos pés.
O comendador lançou-lhe em rosto o seu procedimento, e declarou-lhe que, se não mudasse de vida, era obrigado a pô-lo fora de casa.
O rapaz retirou-se para o quarto envergonhado, irritado, mas ainda não arrependido. Não acusava a fatalidade que o levou a encontrar o pai no teatro, onde nunca ia. Imaginou se seria denúncia de algum desafeto, fez mil planos e dormiu profundamente até à hora do almoço.
O velho Aguiar referiu ao padre a cena do teatro, e pediu-lhe conselho para o caso em que o filho se não emendasse.
O padre refletiu alguns instantes.
— Não sei que conselho te dê, disse ele; o melhor é ver se o estróina se emenda. Queres que eu lhe fale?
— Sim, fala-lhe.
— A culpa é tua, comendador; tu mesmo o perdeste com as tuas facilidades. Não te disse muita vez, que essa idéia de o deixar viver à rédea solta era má? O resultado foi este. O padre Barroso mandou dizer a Jorge que o esperava em casa. O recado causou algum espanto ao rapaz: Que lhe teria de dizer o padre? Suspeitou logo a verdade. Apesar da resolução que tomou de não aceder ao convite do padre, Jorge foi à casa dele. O padre já o esperava há muito. A casa era modesta; os móveis singelos e encanecidos no serviço.
O padre estava diante de uma escrivaninha, sentado numa velha cadeira de couro, de alto espaldar; em frente, tinha aberto um volume in-fólio, que o bom velho lia com atenção e recolhimento. Não se moveu, quando entrou na sala o filho do comendador, conduzido pelo criado. Fez um gesto a este, que se retirou, e continuou a ler até ao fim da página. Depois, fechou o livro, convidou o rapaz a sentar-se ao pé dele, e perguntou-lhe:
— Jorge, até quando quer continuar esta vida?
Jorge não respondeu. O padre contava com o silêncio, e continuou:
— Seu pai fundava muitas esperanças no senhor. Desvelou-se em lhe dar um meio de vida e uma posição na sociedade. Tudo isto lhe desfez o senhor, entregando-se a uma vida libertina. Quando seu pai conheceu o mal, este era quase irremediável. Seu pai, entretanto, não supunha que o senhor chegasse ao ponto de dar o espetáculo de ontem à noite. Imagine, se pode, a dor e a vergonha que lhe causou.
Calou-se o padre, por alguns instantes, e continuou:
— Ainda é tempo; nem tudo está perdido. Pode salvar-se; deve salvar-se.
— Sr. padre Barroso, disse Jorge, eu não nego que a minha vida tem sido um pouco livre; mas eu não faço nada do outro mundo.
— Bem sei, bem sei, redargüiu o padre; tudo o que o senhor faz é deste mundo; e neste mundo é que se fazem as piores coisas...
— Mas eu não faço nada que mereça emenda...
O padre fez um gesto de impaciência.
— E o escândalo de ontem à noite? disse ele.
— O que houve ontem à noite foi um acaso.
— Um homem sério não se expõe a estes acasos.
Jorge franziu a testa.
— Oh! escusa de fazer gestos de estranheza; eu sou velho, sou rude e sou sacerdote; tenho o direito de lhe dizer a verdade. O senhor é um homem doido, e é o menos que lhe posso dizer.
O padre proferiu estas palavras em voz alta e intimativa. Jorge sentiu, a seu pesar, a influência da autoridade do bom velho. Não lhe respondeu. Barroso insistiu em obter dele a promessa de que procuraria carreira e triunfaria dos maus hábitos contraídos. Jorge refletiu algum tempo e respondeu:
— Pois bem, prometo emendar-me.
— É de coração?
Jorge hesitou.
— É, disse ele depois de algum tempo.
Não era de coração, mas o bom padre era um homem sincero; acreditava firmemente na sinceridade dos outros.
— Tanto melhor, disse ele. Emende-se, Jorge; verá que ganha com isso. Calcule a alegria que dará a seus pais. Quando me lembra...
O velho suspirou.
— Quando se lembra? repetiu Jorge.
— Quando me lembra, continuou Barroso, que você podia ser hoje um homem feliz ao lado de uma mulher feliz... de uma mulher que o amou...
— Uma mulher? perguntou Jorge. Quem era?
O padre ia a dizer o nome de Clarinha; mas lembrou-se repentinamente o perigo que podia haver nessa declaração, em vista do atual estado da moça.
Calou-se.
— Quem é essa mulher, repetiu Jorge?
O velho levantou-se sem responder.
Jorge olhava para ele e procurava na memória algum vestígio que lhe indicasse a mulher a quem o padre aludia. Não se lembrou de ninguém. Insistiu com o padre para que lho dissesse.
— De que serviria isso? respondeu o velho sacerdote; o bem que ela lhe podia fazer é já impossível...
— Impossível?
— Sim, impossível.
— Por quê?...
— Porque... morreu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.