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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

- Elas mentem às vezes. Em todo caso mais vale morrer de mão de amigo.

- E tu és de verdade meu amigo?

- Que pergunta!

- Sim. Faço-te confidente de todos os meus planos. Melhor do que ninguém tu sabes o que eupenso sobre as cortes. Tu sabes que não posso aturar essa canalha de pairadores letrados, que quer deitar leis ao meu orgulho e a quem meu pai se entrega com toda a moleza do seu caráter. Mas...

- Eu o traio, porventura?

- Não. Mas tu me aborreces, porque te fazes necessário demais. A tua dedicação enfarta-mecomo a festa insistente dos rafeiros.

- Ora. O príncipe bem sabe que Zabanila é minha inimiga. Não deve, pois, ligar importância noque ela diz, nem permitir que esta cigana de mau olhar queira torná-lo o instrumento das suas vinganças pessoais.

- Sim. Falemos de Zabanila. Todo o ódio que dedicas à pobre rapariga consiste em não seres tuo descobridor daquela pérola.

- Pérola rachada!

- Que importa! Eu insubordino-me e quero emancipar-me da tutela que tens exercido sobretodos os meus amores.

- Revolta de criança que prefere o pão preto das estrebarias ao repasto das mesas do castelo!

- Não, Satanás! É o meu orgulho. Eu quero conquistar uma mulher por mim mesmo. E posso garantir-te que vou em bom caminho.

- Faz bem. Eu velarei, entretanto, sobre os seus dias, como esse cão rafeiro de que falou hápouco, e que tanto o incomoda com as suas carícias.

- Não. Ordeno-te que me deixes só nesta aventura. E, olha, ela não será muito prolongada.Daqui a três dias partiremos para Santos. São, pois, três dias de liberdade que te peço apenas.

- O príncipe ordena.

- Pois bem, então separemo-nos.

E os dous se despediram um do outro, mergulhando nas trevas os seus nobres vultos fidalgos.

V

LE ROI S'AMUSE

D. Pedro tinha razão. Para o seu caráter independente, era afinal uma verdadeira humilhação aquela constante necessidade de recorrer aos serviços do Satanás. O que ele mais desejava, havia muito, era um amor que pudesse satisfazer o seu orgulho de homem. Aquilo rebaixava-o diante de si mesmo; parecia-lhe, ao receber um beijo, que não era o homem, forte e apaixonado, que o recebia, vencedor pela força e pela paixão, mas o príncipe, vencedor pelo nome e pelo prestígio da posição.

E esse amor, que ele sonhava no íntimo, essa esperada paixão desinteressada e nobre, apareceu-lhe (nem o podia imaginar o Satanás!) no mesmo dia em que Branca deixara que o seu coração se dependurasse cativo dos belos bigodes negros de Paulo de Andrade.

Quando a procissão passara, um ano antes, pelo lugar em que estavam Branca e d. Emerenciana, naquela tarde radiante em que a moça pela primeira vez sentira o coração bater sob o domínio de um olhar de homem, o príncipe, que empunhava uma das varas do pálio, viu de relance a filha do seu alter ego.

Dessa tarde em diante, houve para ele a ansiedade indizível de rever e de possuir aquela criatura loura, cujos olhos refletiam a mais pura inocência e toda a ingenuidade de uma criança... Ah! o príncipe já andava farto de mastigar frutos maduros: o que ele agora queria, era o sabor excitante dos pêssegos verdes, ainda não cobertos de penugem.

Viu-a de novo na festa de S. Sebastião, viu-a nos Te-Deuns solenes dos dias de gala, viu-a a passeio, viu-a no largo do Paço, onde naquele tempo as famílias iam tomar fresco, pelas tardes abrasadas do verão. E privado até então de uma ocasião própria para lhe falar, o príncipe ardia em impaciência e em febre: entre duas conquistas fáceis das que lhe arranjava o Satanás, aparecia-lhe sempre a loura imagem de Branca, dominando tudo, apagando tudo com o seu brilho e a sua pureza de estrela inacessível.

Na ocasião em que, por basófia, d. Pedro atirou ao Satanás aquela frase orgulhosa em que vinha explodir, despeitada, a sua altivez, estavam as cousas nesse pé...

O príncipe, sem que uma só palavra pudesse trair as suas ocultas intenções, não falou mais, ao Satanás na aventura em que se tinha empenhado.

Não que esse escrúpulo natural de cavalheiro o retivesse, não querendo magoar na parte mais sensível da alma o seu fiel servidor; ele não sabia que Branca era filha de Pallingrini. O que lhe retinha a indiscrição, era o desejo de poder um dia, mostrando-lhe e provando-lhe que os seus serviços não eram indispensáveis, dizer-lhe:

- Vês? Possuo esta, que é melhor do que todas as outras; e não foste tu que ma deste. Não me foi dada pela tua dedicação, nem pelo meu nome, nem pelo meu prestígio. Amou-me, porque me achou belo, porque me achou forte e valente, porque satisfiz o seu ideal, porque encontrou em mim o homem que lhe devia rasgar diante dos olhos o horizonte ilimitado da vida e do amor! Já vês que os teus serviços não são indispensáveis...

E redobrou de vigilância e de esforços. Afinal, conseguiu saber onde morava a sua desconhecida: seguiu-a de uma vez que a encontrou, embuçado, à saída de uma novena do Parto.

(continua...)

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