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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Oh! Você, Caetano! Como estão todos lá e casa? Mamãe está melhor? E papai, papai que faz que não vem me ver, como prometeu?

Caetano, em vez de responder, pousou no chão uma cesta que trazia, e abriu os braços para o menino, deixa do correr pelo sorriso de seu rosto duas lágrimas de ternura que se lhe escapavam dos olhos.

Era um homem de meia idade, alto, magro, de cabelos grisalhos, à escovinha, cara toda raspada; e tão simpático, tão bom de fisionomia, que a gente gostava dele à primeira vista.

Trajava uma libré cor de rapé, com botões de latão e alamares de veludo preto.

Caetano entrara muito criança para o serviço do avô de Teobaldo, pouco antes do nascimento do pai deste, nunca mais abandonou essa família, da qual mais adiante teremos de falar, e por onde se poderão avaliar os laços de velha amizade que ligavam aquele respeitoso criado ao neto de seu primeiro amo.

Por enquanto diremos apenas que o bom Caetano. viu crescer ao seu lado o pai de Teobaldo; que o acompanhou tanto nas suas primeiras correrias de rapaz, como mais tarde nas suas aventuras políticas durante as revoluções de Minas; e que a intimidade entre esses dois companheiros por tal forma os identificou, que afinal criado era já consultado e ouvido como um verdadeiro membro e amigo da família a que se dedicara. - Mas, Caetano, que diabo veio você fazer aqui? perguntou Teobaldo. Há novidade lá por casa? Fale; Mamãe piorou?

- Não; graças a Deus não há novidade. A senhora baronesa não piorou, e parece até que vai melhor; o que ela tem é muitas saudades de vossemecê.

- E papai, está bom?

- Nhô-Miló (era assim que chamava o amo) está bom, graças a Deus. Foi ele quem me mandou cá. Vim trazer um dinheiro ao doutor.

- Ah! Ao diretor? Quanto foi?

- Trezentos mil réis.

- Seriam emprestados, sabes?

- Creio que sim, porque trouxe uma letra que tem de voltar assinada...

- E isso que trazes aí no cesto é para mim?

- É, sim senhor. É a senhora baronesa quem manda.

Teobaldo apressou-se a despejar a cesta. Vinham doces, queijo, nozes, figos secos, passas, amêndoas, frutas cristalizadas e uma garrafa de vinho Madeira.

- Isto é que é pouco; devia ter vindo mais... considerou ele, pousando a garrafa no chão.- Pois fique sabendo que, se não fosse Nhô-Mjló, nem essa teria vindo... A senhora baronesa chegou a zangar-se com ele.

E, mudando de tom:

- Mas é verdade, vossemecê está preso?

- Qual! Estou aqui porque assim o quis.

Em quatro palavras Teobaldo contou o motivo da sua prisão.

- Ah! disse o criado, vossemecê é seu pai, sem tirar nem pôr!

- Sim, mas não contes nada em casa...

- Não há novidade, não senhor!

E, depois de conversarem ainda mais alguma coisa, Caetano abraçou de novo o rapaz, despediu-se do outro e retirou-se, pretextando que não convinha demorar-se para não chegar muito tarde à fazenda.

Outra vez fechada a prisão, Teobaldo, restituído ao seu bom humor com o presente da família, voltou-se, já risonho, para o companheiro e disse, batendo-lhe no ombro:

- Ao menos temos aqui com que entreter os queixos. E, dispondo tudo sobre uma cadeira, principiou a expor o conteúdo dos pacotes e das caixinhas de doce: Felizmente a garrafa está aberta e o púcaro dágua serve para beber vinho. Não acha que isto veio a propósito?

- É, resmungou o Coruja.

- Pois então, mãos à obra! Gosta de vinho?

- Não sei...

- Como não sabe?

- Nunca provei.

- Nunca? Oh!

- É exato.

- Pois experimente. Há de gostar.

André entornou no púcaro três dedos de vinho e bebeu-o de um trago.

- Que tal? perguntou o outro fazendo o mesmo.

- É bom! disse Coruja a estalar a língua.

- Com um pouco de queijo e doce ainda é melhor, atire-se!

André não se fez rogado, e os dois meninos, em face um do outro, puseram-se a petiscar, como bons amigos. Teobaldo, porém, depois de repetir várias vezes a dose do vinho, precisava dar expansão ao seu gênio comentador e satírico; ao passo que o companheiro saboreava em silêncio aqueles delicados pitéus, que chamavam ao mal confortado paladar delícias inteiramente novas e desconhecidas para ele.

E contentava-se a resmungar, de vez em quando:

- É muito bom? É muito bom!

- Pois eu, sempre que receber presentes lá de e prometeu o outro, hei de chamá-lo para participar deles. Está dito?

- Está.

- Você chama-se...

- André.

- De...

- Miranda.

- André Miranda.

- De Melo.

- Ah!

- E Costa.

- Não sabia. Como todos no colégio só o tratam por "Coruja"...

- É alcunha.

- Foi aqui que lha puseram?

- Foi.

- Por quê?

- Porque eu sou feio.

- E não fica zangado quando lhe chamam assim?

- Não.

- Eu também faria o mesmo, se me pusessem alguma. Os nossos colegas são todos uns pedaços dasnos, não acha?

Coruja sacudiu os ombros e Teobaldo, um pouco agitado pelo Madeira, começou a desabafar todo o ressentimento que até ai reprimia com tanto orgulho. Falou francamente, queixou-se dos companheiros, julgou-os a um por um, provando que eram todos aduladores e invejosos.

- Não quero saber deles para nada! exclamou indignado. Você é o único com que me darei!

(continua...)

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