Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

O Teles e o Tobias

Por Machado de Assis (1866)

É inútil dizer que os dois adversários ficaram furiosos com este artigo. Entretanto Alfredo Teles, a estando folhear uns papéis, deu com uma tira em que achou o primeiro borrão do anagrama que mandara à filha do Tobias; riu-se, e mandou-lhe um bilhete, explicando-lhe o caso.

A pobre moça quase morreu de alegria, e foi dizer ao pai que Alfredo não estava doido; Manoel Tobias pediu explicação do fato. Deu-lha a rapariga, e o pai fez proscrever de casa pena e papel. A filha jurou consigo que havia de sair daquele cativeiro.

Os dias corriam, a candidatura de Alfredo ia tomando certo corpo, e mais ainda a do redator do Azorrague, que tinha as simpatias da vila.

Finalmente chegou-se à véspera da eleição. Foi essa uma noite de trabalho insano, em todos os campos litigantes. Prepararam-se artigos ardentes, e fez-se provisão de manjares para regalar os estômagos da soberania nacional.

Às 11 horas da noite, retirou-se Alfredo para o seu quarto que dava para o terreiro da chácara, e preparava-se para descansar e levantar-se mais fresco no dia seguinte quando sentiu que lhe batiam à janela. Espantou-se daquilo e foi buscar um revólver, e abriu a janela... Céus! que viu ele!

— A filha de Tobias, montada em um cavalo branco, com uma trouxa na garupa e os cabelos desgrenhados.

— Que é isto?

— Fujo ao desespero! Venho buscá-lo para sairmos daqui.

— Mas, entre, entre...

— Não! não entro... E a minha honra?

— Saia você, traga um pajem, e vamos para a fazenda de minha tia, que é daqui a uma légua; ela está à nossa espera; lá nos casaremos, e voltaremos depois para pedir perdão a nossos pais.

— Mas, meu anjo...

— Assim é preciso... quando não, vou atirar-me ao rio!

Alfredo compreendeu que não podia lutar com a moça; fechou um pouco a janela, vestiu-se, chamou o pajem, por quem mandou aprontar os animais, e depois de lançar um olhar de saudade para a cama, dirigiu-se para o terreiro.

Já lá estava o pajem com os animais. Seguiram todos para a fazenda, onde a moça ficou, voltando Alfredo para a vila, onde chegou às duas horas da manhã. No dia seguinte, que era o da eleição, Alfredo levantou-se ao ouvir esta apóstrofe do pai:

— Pois quê! meu tratante! dormes até às 9 horas num dia de eleição, e quando se vai decidir do teu futuro político! Levanta-te, mandrião.

Alfredo demorou-se ainda na cama, o tempo preciso para ver se podia fazer da palavra mandrião um anagrama, mas não atinava, e pôs-se de pé. Almoçaram e foram para a câmara municipal, acompanhados de alguns eleitores mais íntimos.

Alfredo ia trêmulo com a lembrança do que lhe acontecera na véspera, e temendo receber de algum capanga uma sova intempestiva. À porta da câmara municipal estava Manoel Tobias, risonho e tranqüilo, o que fez impressão no espírito de Alfredo. Tobias ouvia a alguns eleitores, acerca das probabilidades da eleição, e passava as suas cédulas muito honradamente.

Entretanto aproximava-se a hora do combate. Tobias foi tomar conta da presidência da mesa.

— Então o que há? perguntava Chico Teles, a um eleitor enquanto Alfredo corria diversos grupos.

— Tudo vai bem...

— Acha que meu filho pode...

— Se pode! Eu conto com grande maioria…

— Ah! Deus o queira.

E Chico Teles foi ter com outro eleitor.

Quanto ao eleitor que acabava de animá-lo, apenas Teles se retirou, aproximou-se de um capanga de Tobias e disse:

— Então? Os cavalos?

— Já estão em sua casa.

— Quatro.

— Bem; dê cá a lista; afirme que eu votei contra o Alfredo.

CAPÍTULO X

A casa da câmara regurgitava de povo, oferecendo um espetáculo único — um espetáculo eleitoral.

No centro estavam a mesa e a urna, com os mesários à roda, e o presidente à cabeceira. A urna, a duvidosa vestal política destes tempos, estava ainda fechada com os sete selos do apocalipse.

Era um falatório geral; grupos de um lado e de outro discutiam a eleição, trocavam listas, riscavam nomes, tomavam notas; daqui engendrava-se um protesto, dali imaginava-se um distúrbio, no caso de perda da eleição. Era um caos. Finalmente começou a chamada, e os eleitores foram paulatinamente deitando na urna as suas cédulas.

O sr. Anselmo, apesar de ser o mais sério de todos os candidatos, nem por isso deixava de apresentar a feição característica daquelas ocasiões, e cabalava como qualquer dos outros; dizia-se que ele seria eleito, mas ninguém ousava afirmar que Alfredo Teles deixaria de sê-lo igualmente, e nesta esperança se consolava o filho do subdelegado.

Recolhidas as cédulas, começou o trabalho da apuração. Venceu a chapa do governo, exceto em um dos nomes, que foi substituído pelo do sr. Anselmo. Alfredo Teles saiu suplente em décimo lugar.

A lista vencedora foi esta:

Luís Barreto (primo do presidente da província).... 69 votos.

Antônio Barreto (afilhado de crisma do ministro do Império).... 67 votos. Pantaleão Soares (oficial de uma secretaria no Rio de Janeiro) .... 59 votos. Pedro Mota (credor de dois ministros).... 59 votos.

José Batista (ex-adversário do governo).... 58 votos.

Honório Bandeira (cunhado de um oficial maior).... 58 votos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →