Por Machado de Assis (1868)
De pergunta em pergunta, de dedução em dedução, abriu-se no espírito de Vasconcelos campo para uma suspeita dolorosa.
"Amá-lo-á ela?" perguntou ele a si próprio.
Depois, como se o abismo atraísse o abismo, e uma suspeita reclamasse outra, Vasconcelos perguntou:
- Ter-se-iam eles amado algum tempo?
Pela primeira vez, Vasconcelos sentiu morder-lhe no coração a serpe do ciúme.
Do ciúme digo eu, por eufemismo; não sei se aquilo era ciúme; era amor próprio ofendido.
As suspeitas de Vasconcelos teriam razão?
Devo dizer a verdade: não tinham. Augusta era vaidosa, mas era fiel ao infiel marido; e isso por dous motivos: um de consciência, outro de temperamento. Ainda que ela não estivesse convencida do seu dever de esposa, é certo que nunca trairia o juramento conjugal. Não era feita para as paixões, a não ser as paixões ridículas que a vaidade impõe. Ela amava antes de tudo a sua própria beleza; o seu melhor amigo era o que dissesse que ela era mais bela entre as mulheres; mas se lhe dava a sua amizade, não lhe daria nunca o coração; isso a salvava.
A verdade é esta; mas quem o diria a Vasconcelos? Uma vez suspeitoso de que a sua honra estava afetada, Vasconcelos começou a recapitular toda a sua vida. Gomes freqüentava a sua casa há seis anos, e tinha nela plena liberdade. A traição era fácil. Vasconcelos entrou a recordar as palavras, os gestos, os olhares, tudo que antes lhe foi indiferente, e que naquele momento tomava um caráter suspeitoso.
Dous dias andou Vasconcelos cheio deste pensamento. Não saía de casa. Quando Gomes chegava, Vasconcelos observava a mulher com desusada persistência; a própria frieza com que ela recebia o rapaz era aos olhos do marido uma prova do delito.
Estava nisto, quando na manhã do terceiro dia (Vasconcelos já se levantava cedo) entrou-lhe no gabinete o irmão, sempre com ar de selvagem costume.
A presença de Lourenço inspirou a Vasconcelos a idéia de contar-lhe tudo.
Lourenço era um homem de bom senso, e em caso de necessidade era um apoio.
O irmão ouviu tudo quanto Vasconcelos contou, e concluindo este, rompeu o seu silêncio com estas palavras:
- Tudo isso é uma tolice; se tua mulher recusa o casamento, será por qualquer outro motivo que não esse.
- Mas é o casamento com o Gomes que ela recusa.
- Sim, porque lhe falaste no Gomes; fala-lhe em outro, talvez recuse do mesmo modo. Há de haver outro motivo; talvez Adelaide lhe contasse, talvez lhe pedisse para opor-se, porque tua filha não ama o rapaz, e não pode casar com ele.
- Não casará.
- Não só por isso, mas até porque...
- Acaba.
- Até porque este casamento é uma especulação do Gomes.
- Uma especulação? perguntou Vasconcelos.
- Igual à tua, disse Lourenço. Tu dás-lhe a filha com os olhos na fortuna dele; ele aceita-a com os olhos na tua fortuna...
- Mas ele possui...
- Não possui nada; está arruinado como tu. Indaguei e soube da verdade. Quer naturalmente continuar a mesma vida dissipada que teve até hoje, e a tua fortuna é um meio...
- Estás certo disso?
- Certíssimo!...
Vasconcelos ficou aterrado. No meio de todas as suspeitas, ainda lhe restava a esperança de ver a sua honra salva, e realizado aquele negócio que lhe daria uma excelente situação.
Mas a revelação de Lourenço matou-o.
- Se queres uma prova, manda chamá-lo, e dize-lhe que estás pobre, e por isso lhe recusas a filha; observa-o bem, e verás o efeito que as tuas palavras lhe hão de produzir.
Não foi preciso mandar chamar o pretendente. Daí a uma hora apresentou-se ele em casa de Vasconcelos.
Vasconcelos mandou-o subir ao gabinete.
Capítulo VII
Logo depois dos primeiros cumprimentos Vasconcelos disse:
- Ia mandar chamar-te.
- Ah! para quê? perguntou Gomes.
- Para conversarmos acerca do... casamento.
- Ah! há algum obstáculo?
- Conversemos.
Gomes tornou-se mais sério; entrevia alguma dificuldade grande. Vasconcelos tomou a palavra.
- Há circunstâncias, disse ele, que devem ser bem definidas, para que se possa compreender bem...
- É a minha opinião.
- Amas minha filha?
- Quantas vezes queres que to diga?
- O teu amor está acima de todas as circunstâncias?...
- De todas, salvo aquelas que entenderem com a felicidade dela.
- Devemos ser francos; além de amigo que sempre foste, és agora quase meu filho... A discrição entre nós seria indiscreta...
- Sem dúvida! respondeu Gomes.
- Vim a saber que os meus negócios param mal; as despesas que fiz alteraram profundamente a economia da minha vida, de modo que eu não te minto dizendo que estou pobre.
Gomes reprimiu uma careta.
- Adelaide, continuou Vasconcelos, não tem fortuna, não terá mesmo dote; é apenas uma mulher que eu te dou. O que te afianço é que é um anjo, e que há de ser excelente esposa.
Vasconcelos calou-se, e o seu olhar cravado no rapaz parecia querer arrancar-lhe das feições as impressões da alma.
Gomes devia responder; mas durante alguns minutos houve entre ambos um profundo silêncio.
Enfim o pretendente tomou a palavra.
- Aprecio, disse ele, a tua franqueza, e usarei de franqueza igual.
- Não peço outra cousa...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.