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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Uma parte tornai da funda mágoa

E ajudai-me a punir tamanha afronta!”

XII

Aqui refere o caso da devassa

Que aos figadais, solícitos amigos,

Lhes arrepia as carnes e o cabelo,

E desta sorte acaba o seu discurso:

- "Eu merecera arder no eterno fogo

Que o cão tinhoso aos pecadores guarda,

Viver de bacalhau toda a quaresma,

Dormir três horas numa noite inteira,

Se esse infame ouvidor, parto do inferno,

Triunfasse de mim, e ao riso e às chufas

Me expusesse da plebe e dos lacaios.

Que diriam de mim nesses conventos,

Focos de luz, onde o meu nome há muito

De tão ilustre ofusca os outros nomes,

Qual a um raio se vê do sol brilhante

Da noite os claros lumes desmaiarem?

Eia! a afronta comum igual esforço

De todos nós exige. As vossas luzes

Me ajudarão neste difícil caso,

E se inda o mundo não perdeu de todo

O lume da justiça, aquele biltre,

Que tão cheio de si anda na terra,

Tamanho tombo levará do cargo

Que estalará de espanto e de vergonha.

XIII

Assim falou Almada, e toda a mesa

Lhe aprovou o discurso. O Vilalobos,

Em quem os olhos fita o grão prelado,

Algum tempo medita um bom alvitre,

E ia já começar a sua arenga

Quando o astuto Veloso a vez lhe toma:

“Minha idéia, senhor, é que esse infame

Nem alma, nem vigor, nem bizarria

Houve do céu, e que abater-lhe a proa

O mesmo vale que esmagar brincando

Uma pulga, um mosquito, uma formiga.

Mas porque seja bom tapar a boca

Aos vadios da terra, e porque vale,

Em certos casos, afetar nas formas

Tal ou qual mansidão, que não existe,

Cuido que em lhe mandando uma embaixada

A exigir-lhe a devassa. . .”

XIV

“Nunca! Nunca!

(Interrompe o vigário). Uma embaixada!

E tal cousa, senhor, nascer-lhe pôde

Tratar de igual a igual a um bigorrilhas!

No claro entendimento? Todo o lustre,

Valor e autoridade a igreja perde

Se não falar de cima ao tal pedante,

Com desprezo, com asco. Em boa regra,

Cortesia demanda cortesia;

Mas um vilão que a processar se atreve

Os criados da casa do prelado,

Em vez de uma embaixada, merecia

Nas costas uma dose de cacete.

Não, senhor; é meu voto que se mande

Uma singela, e seca, e rasa, e nua

Citação para a entrega da devassa

No prazo de três dias. Desta sorte

Não se abate o prelado, nem as nobres

Insígnias enlameia do seu cargo,

Que eles e nós todos conservar devemos

Puras de vil contacto”.

XV

- “Mas vale a pena?

(Triunfante o Veloso lhe pergunta).

Uma pena há de haver com que se obrigue

A cumprir o mandado? Suponhamos

Que entregar a devassa ele recuse,

Que recurso nos dais para sairmos

Deste apertado lance? Há de o prelado

Ver mofar do poder que lhe compete?

A derrota assistir da causa sua?

Humilhar-se? Eu jamais aprovaria

Tão singular idéia. Uma embaixada,

Sem da igreja abater os sacros foros,

Com jeito e mancha alcançaria tudo,

E se nada alcançasse, é tão brilhante

A fama do prelado, que bastava

A causa remeter para Lisboa,

Que em seu favor viria o régio voto.”

XVI

Acabou de falar. Então a Gula,

Que presente ali estava, enquanto a Ira

O belicoso espírito lhes sopra

Aos duros capitães lhes vai roendo

As famintas entranhas, qual nos contam

Do filho de Climene, que primeiro

Ao céu roubara o lume antes que o tempo,

Longo volvendo séculos e séculos,

Real tornasse a fábula do homens

E nos desse o teu gênio, imortal Franklin.

XVII

E depois que a discreta. companhia,

Por não perder o precioso tempo,

Foi comendo e falando sobre o caso,

Fazendo a língua dois ofícios juntos,

Esta sentença lavra o grande Almada:

“Acho muito cabida e boa a idéia

Do pregador Veloso; mas não menos

Razoável a idéia me parece

Do profundo vigário. Aceito-as ambas

E praticá-las vou. Desta maneira

Ostento mansidão, e com mais força

O golpe lhe darei, se me recusa

A devassa entregar. Ao mesmo tempo

Alterada não vejo a paz gostosa

Em que de outras fadigas descansamos.

Entretanto, convém que armado e pronto

Vá logo o embaixador. A vós incumbo

(O forte Almada ao Vilalobos disse)

Da solene feitura de um mandado

Coo prazo de três dias, e com pena

De ... excomunhão!”

XVIII

Aqui um alto grito

De espanto, de terror, de entusiasmo

Rompe do peito aos veneráveis sócios.

Como nas horas da calada noite

Uma pêndula bate solitária,

Depois outra. mais outra, e muitas outras

Monótonas o mesmo som repetem,

Assim de boca em boca os reverendos

“Excomunhão! excomunhão!” murmuram,

Porventura algum deles duvidoso

Se aquela vencedora espada antiga

Que as heresias combateu na Igreja

Empregar-se num caso deveria

De tão pequena monta; mas, guardando

Essa idéia consigo, que não rende

Os risos do prelado nem os fartos

Jantares que amiúde lhe oferece,

Com todo o gosto a excomunhão aplaude

Do insolente juiz.

XIX

Então o Lucas

Que, desde que estreara a lauta mesa,

Come com quantos dentes tem na boca,

Que uma assada cutia despachara,

Quatro pombos, e de uma grande torta Ia já caminhando em

mais de meio,

A boca levantou do eterno pasto

E falou desta sorte: “Bem humilde

É meu braço, senhor; mas se a defesa

Dos sacros foros meu esforço pede,

Contar podeis comigo neste lance,

E certo estou que em decisão e zelo

Ninguém me há de exceder. Proponho agora

Que nesta ocasião grave e solene

Juramento façamos de puni--lo

Ao ouvidor, e não deixar o campo

Sem o honra lavar do nobre Almada”.

(continua...)

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