Por Aluísio Azevedo (1882)
E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalêzinho da viúva compunha-se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária.
Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto. Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia-se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo.
O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalêzinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte.
Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens.
Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas.
— Meu amigo! disse-lhe uma vez a viúva; Q senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos!
— Mas quem deseja escravizá-la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é?
— Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida. Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto...
E fazendo um gesto de graciosa impaciência:
— Homem menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia...
Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase.
— Já nem me lembra o que queria dizer...
— E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus.
— Vai suicidar-se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que preciso preparar o sentimento!
— Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura...
— Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno...
— Por quê?...
— Porque já se tinha despedido e deixa-se ficar.
— Nesse caso...
— Adeus.
— Até quando, ingrata?...
— Até à primeira ausência da lua.
E a viúva fechou a porta com uma risada.
Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. E por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista.
Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu-o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas.
— Vim importuná-la mais uma vez...
— Não. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito?
— Trago-lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece? — Dê cá.
E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes.
— Que tal o acha?...
Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os de novo sobre o livro e continuou a leitura.
Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura.
Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou-a aos lábios com a sofreguidão de um faminto.
Ela continuou a ler.
Gregório aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou-lhe a polpa macia do pescoço.
— Então? Que é isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se melindrada e deixando escapar o livro das mãos.
Gregório levantou-se também, mas prendeu a viúva nos braços.
— Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa...
A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.