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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ouça! — Por ora, meu amigo, pertenço-lhe de direito, porque nos casamos, e isso tornava-se inevitável na situação em que o senhor me achou; mas

declaro-lhe abertamente que só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor tiver conquistado o meu amor à custa de dedicação e de perseverança! Só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor se houver cabalmente habilitado para isso! Compreende, agora?...

O marido deixou cair a cabeça e ficou a pensar, enquanto a mulher atravessava o gabinete, depois ~ saleta, e fora assentar-se no divã do salão. No fim de cinco minutos, Borges levantou-se resolutamente e foi ter com ela:

— De sorte que a senhora tenciona continuar com a porta do seu quarto fechada, até que eu...

— A porta e o coração, acudiu Filomena — até que o senhor os consiga abrir com os seus desvelos!

— Quer então que lhe faça a corte?...

— De certo.

— Pois tomo a liberdade de declarar a V. Ex. que foi justamente por não ter jeito para essas coisas ~ que me casei! Se eu tivesse gênio para atirar-me aos pés de uma mulher e fazer-lhe a minha declaração com palavreados de romance, se eu tivesse queda para galante, não procuraria uma esposa, bastava-me ter uma...

Filomena não lhe deu tempo de concluir a frase. Ergueu-se num só movimento, e, depois de medi-lo de alto a baixo com um olhar de rainha ofendida, afastou-se lentamente em silencio, os passos firmes, a cabeça altiva. Borges correu logo atrás dela e segurou-lhe uma das mãos.

— Solte-me! exclamou Filomena, arrecadando o braço.

E fugiu para a saleta, atirou-se sobre o divã em que o marido passara a noite, e aí rompeu a soluçar com um frenesi histérico.

Borges ajoelhou-se-lhe aos pés e cobriu-lhe as mãos de beijos e de lágrimas.

— Não leves a mal aquilo, minha santa! Desculpa, exclamou ele, escondendo o rosto no colo da esposa. Reconheço que não fui muito delicado excedi-me, mas não sei onde tenho a cabeça — não estou em mim! É que me pões doido com tuas palavras! Oh! mas não fiques zangada, não chores; tudo aquilo prova justamente o bem que eu te quero, minha vida, minha mulherzinha do coração!

Filomena não respondia e continuava a chorar, toda prostrada no divã: a cabeça vergada para trás, o rosto encoberto por um lenço de rendas, que ela segurava em uma das mãos, ao passo que abandonava a outra aos beijos apaixonados do marido. Agora os soluços eram espaçados e mais secos, como os últimos rumores de uma tempestade que acalma.

De repente, ergueu-se. Fitou por instantes o marido, que jazia a seus pés ajoelhado, a encará-la lacrimoso e súplice; depois estendeu os braços, deu-lhe um empurrão e fugiu para o seu quarto, fechando-se logo por dentro, violentamente.

O Borges ficou meio assentado e meio deitado no chão, amparando-se às mãos e aos pés.

— E esta — balbuciou ele dai a pouco, erguendo-se de mau humor. É gira ou não é gira?...

E pôs-se a percorrer todo o pavimento, rondando o quarto fechado da mulher, como um gato que fareja o guarda-petiscos... No fim de uma hora de exercício, indo e revindo incessantemente, de lá, para cá, as mãos nas algibeiras das calças, o olhar cravado na esteirinha do soalho, Borges estacou no meio do salão:

É de mais! pensou ele. — É para um homem perder a cabeça!

E atirou-se prostrado à cadeira de balanço, passando uma revista mental a todas as contrariedades e decepções que o afligiam desde a véspera.

— Ora aí estava para que se tinha casado!... Passar por tudo aquilo!... Ele! Ele, que em sua longa vida de solteiro nunca amargara uma noite tão má e um dia tão levado da breca! — Quem te mandou, João Borges, meter em camisa de onze varas?... Maldito fosse o Guterres, que o levou à casa da defunta Clementina! Antes tivessem ambos quebrado as pernas nessa ocasião! Maldito Guterres!

E, acabrunhado por esses raciocínios, sentindo perfeitamente que não tinha forças para arrancar de si a paixão enorme que lhe inspirava a esposa, levantou-se de novo, foi e veio por todo o segundo andar, suspirando e tossindo todas às vezes que passava defronte da porta de Filomena. Afinal, no fim de outra hora de passeio, convencido de que a mulher não aparecia, desceu ao primeiro pavimento.

Os amigos já lá estavam para o jantar. Guterres foi o primeiro que correu ao seu encontro, abrindo-lhe os braços.

E, discretamente, enquanto o estreitava: — Você está abatido, seu maganão!

Borges sorriu, protestando vagamente:

— Uma enxaqueca!... Uma pequena enxaqueca!...

— E sua senhora?... perguntou um dos amigos.

— Vem já, vem já... Ela, também, coitadinha!... não passou lá para que digamos!...

— Outra enxaqueca?...

— Naturalmente! Considerou um terceiro a rir.

— Ah! estes noivos! estes noivos!... volveu o Guterres a bater no ombro do Borges. — Não precisa fazer-se vermelho, que diabo! Já sei o que isso é, meu amigo, já passei duas vezes por esses transes!...

(continua...)

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