Por Franklin Távora (1878)
A senhora-de-engenho não quis parecer obstinada. Deu o andar para dentro com sua antiga aia, Marcelina e as mucamas. É, porém, certo que seus espíritos, alvoroçados com a eminência do perigo, não se deixaram lá ficar, antes vieram emparelhar-se a João da Cunha, vigiando sobre ele, estremecendo por sua existência, a qualquer detonação, a qualquer vibração suspeita de lhe ser ofensiva.
Quando se acharam sós, correram os três fidalgos às urupemas a examinar o aspecto do campo inimigo. - Estais vendo, Felipe? Inquiriu Luiz Vidal.
- Que quereis dizer?
- Aquela mó de gente de negro que se move do lado de lá do cruzeiro?
- Estou vendo. São frades, ao que parece.
- São os próprios frades do convento – disse João da Cunha – que distribuem armas e munições pelos matutos esfarrapados e imundos. Oh! os frades, os frades do Recife e de Goiana têm tido grande parte nesta guerra!
Tendo dito estas palavras, o senhor-de-engenho deu o andar para descer.
- Para onde ides? perguntou-lhe Luiz Vidal, carregando o mosquete de que lançara mão.
- Vou mandar subir para cá a metade dos negros. Precisamos dar logo sinal de nós, rompendo o fogo sobre aqueles magotes ferozes. Prudência, amigo, prudência! Observou Filipe. Vede bem não vá esta provocação decidi-los a acometer logo o sobrado.
- Que tem que venham? Tenho forças bastantes, não só a resistir-lhes, mas a batê-los.
- Não estareis enganado? Demais não será mais acertado nada tentarmos contra eles, antes de chegarem os reforços que Cosme foi buscar? Se aquela gente toda, reunida com a que está na frente da cadeia, vier assaltar-nos, achais que poderemos ficar vencedores?
- Só por milagre, ajuntou Luiz Vidal. Mas olhai que a força inimiga, Filipe. Não compreendeis aquela manobra, ordenada por Luiz Soares?
As forças deste caudilho tinham-se dividido em três grandes pelotões. O do centro, formando uma extensa linha ao longo da praça, parecia querer adiantar-se até ao cruzeiro, e de feito se encaminhou para ai; os das extremidades, mais numerosos e compactos, desceram, correndo a marche-marche a tomar as embocaduras, ao norte e ao sul da rua.
Claro está o plano do caudilho, disse o sargento-mór. Atentai nele. A linha do centro manterá sobre nossa frente incessante fogo, enquanto as outras duas, ganhando os lados, vêm reunir-se com ela no ponto comum, que não é outro senão as nossas portas. Houve um momento de silencio. Os fidalgos, por trás das rotulas, olhavam para um lado e para outro, como quem estava estudando as posições inimigas. Enfim Luiz Vidal voltou-se para o senhor-de-engenho e lhe disse:
- Não percamos mais um momento. As forças aí vêm. Se não resistirmos, em dez minutos estaremos no poder dos rebeldes. Descei, descei, e mandai a gente para cá. O forte dela deve ficar lá em baixo. Cá em cima precisamos unicamente de quem saiba carregar e descarregar sua arma. Lá em baixo requerem-se ânimos viris. Será lá o nosso posto de honra.
João da Cunha desceu e tornou logo. Vinham com ele o Roberto e mais dez negros.
- Vês aquela linha de homens que ali vem avançando e atirando para cá? Perguntou o sargento-mór, indicando ao feitor a parte da força que era comandada pelo próprio Luiz Soares. Estou vendo, sim senhor.
- Sobre ela devem ser feitas todas as pontarias. De lá debaixo, quero ver cair aqueles alteadores atravessados pelas balas dos meus escravos. Senhor sim, disse Roberto.
Os negros foram distribuídos pelas janelas. Pelos interstícios das urupemas introduziram os canos dos bacamartes, e espararam a voz de – fogo. O sargento-mór, tanto que viu as armas abocadas na direção conveniente, ordenou uma descarga. Queria por seus próprios olhos ter uma prova, antes de descer ao outro pavimento, do valor e da disciplina da sua gente.
No mesmo instante um só e infernal estampido encheu o âmbito da sala, e foi revoando pelos aposentos e salas imediatas. A casa, em que predominava a pesada alvenaria daqueles tempos, estremeceu, não obstante, como se fora de taipa de sebe, desde os fundamentos até ao teto, de cujo estuque se desagregaram partículas calcinadas. Dir-se-ia que ali o mundo acabava de ter uma das suas medonhas comoções, um desses terríveis cataclismos que se resolvem no aparecimento de mais um vulcão, na abertura de mais um abismo. Misericórdia! Misericórdia! Gritaram dentro algumas mulheres aterradas. Quando iam descendo, ouviram os fidalgos o estrondear de uma forte descarga do lado de fora. Era a resposta que os da rua davam aos do sobrado. Era mais do que uma simples resposta; era principalmente intimação, feita pelo fogo, a que se rendessem, senão a acerba ameaça de que dentro em pouco tempo não passariam de vencidos e prisioneiros.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.