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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

uma expressão provocadora, que por certo havia de desairar outro semblante, mas tonha no seu uma sedução irresistível e uma beleza fatal e deslumbrante. 

Nunca se fixou na tela, nem se lavrou no mármore, tão sublime imagem da tentação, como aí estava encarnada na altivez fascinante da formosa mulher. 

Aos primeiros compassos principiou este rápido diálogo, cortado pelas evoluções da dança: 

- Não sei valsar devagar. 

- Pois apressemos o passo. 

- Não lhe tonteia? 

- Não; a cabeça é forte. 

- E o coração? 

- Este já calejou. 

- Pois eu sou o contrário. 

- O coração? 

- Nunca vacilou. 

A moça continuara soltando frases intermitentes. 

- A cabeça é que é fraca. – Mas que singularidade! – Em tudo sou esquisita! – Devagar é que tonteio. – A casa roda em torno de mim. – Depressa não. – Quanto tudo desaparece... – Quando não vejo mais nada... – Então sim! – Então gosto de valsar! – E posso valsar muito tempo! 

Passavam perto da música. Seixas disse ao regente da orquestra:

- Apresse o compasso! 

O arco do regente deu o sinal. 

- Mais! disse Aurélia. 

Amiudaram-se as pancadas do arco. 

- Ainda mais! ordenou a moça. 

O arco sibilou. Os instrumentos estrepitara,; as notas despenhavam-se não em escalas, mas em borbotões.Não era mais valsa de Strauss; era um turbilhão musical, um pampeiro como saía das mãos inspiradas de Liszt. 

O lindo par arrojou-se, deixando a trotar classicamente os outros que não podiam acompanhar aquela torrente impetuosa. Obscurecia-se a vista que buscava acompanhá-lo; ele passava nublado por aquela espécie de atmosfera oscilante, que a velocidade da rotação estabelecia em torno de si. 

Aurélia cerrara a meio as pálpebras; seus longos cílios franjados, que roçavam o cetim das faces, sombrearam o fogo intenso do olhar, que escapava-se agora em chispas sutis, e feriam o semblante de Seixas com os rútilos de uma estrela. 

A valsa é filha das brumas da Alemanha, e irmã das louras valquírias do norte. Talvez sobre essas regiões do gelo, com os doces esplendores da neve, o céu derrame alguma da serenidade e inocência que fruem os bem-aventurados; talvez que os povos da fecunda Germânia, quando vão ao baile, mudem o temperamento com que marcham à guerra, e façam correr nas veias cerveja em vez de sangue. 

A ser assim, pode a valsa ter naqueles países as honras de uma dança de sala. Em outra latitude, deve ser desterrada para os bailes públicos, onde os homens gastos vão buscar sensações fortes, que o ébrio pede ao álcool. 

Há nessa dança impetuosa alguma coisa que lembra os mistérios consagrados a Vênus pela Grécia pagã, ou o delírio das bacantes quando agitavam o tirso. "É, na frase do grande poeta, a valsa imoura e lasciva, desfolhando as mulheres e as flores". 

Nunca a linguagem, que esse rei da palavra, chamado Vitor Hugo, subjuga e maneja como um brioso corcel, prestou-se à mais eloqüente expressão do pensamento. É realmente a desfolha da mulher, a despolpa de sua beleza e de sua pessoa, o que a valsa impudica faz no meio da sala, em plena luz, aos olhos da turba ávida e curiosa. 

As senhoras não gostam da valsa, senão pelo prazer de sentirem-se arrebatadas no turbilhão. Há uma delícia, uma voluptuosidade pura e inocente, nessa embriaguez da velocidade. Aos volteios rápidos, a mulher sente nascer-lhe as asas, e pensa que voa; rompe-se o casulo de seda, desfralda-se a borboleta. 

Mas é justamente aí que está o perigo. Esse enlevo inocente da dança, entrega a mulher palpitante, inebriada, às tentações do cavalheiro, delicado embora, mas homem, que ela sem querer está provocando com o casto requebro de seu talhe e traspassando com as tépidas emanações de seu corpo. 

O que é a valsa, mostrava-o aquele formoso par que girava na sala; e ao qual entretanto defendia os olhos maliciosos da casta e santa auréola da graça conjugal, com que Deus os abençoara. 

Fernando arrependia-se de ter cedido ao desejo da mulher e começava, ele um dos impertérritos valsistas da corte, a recear a vertigem. 

Seu olhar alucinado pelas fascinações de que se coroava naquele instante a beleza de Aurélia, tentou desviar-se e vagou pela sala. Voltou porém atraído por força poderosa e embebeu-se no êxtase da adoração. 

Quando a mão de Aurélia calcava-lhe no ombro, transmitindo-lhe com a branda e macia pressão o seu doce calor, era como se todo seu organismo estivesse ali, naquele ponto em que um fluido magnético o punha em comunicação com a moça. 

Depois essa estranha sensação tornou-se ainda mais intensa. Já não tinha consciência de si para perceber distintamente a pressão dos dedos em seu ombro. O que se passava nele era uma verdadeira intruscepção da forma peregrina dessa mulher, que ele via em face, mas sentia dentro de si. 

Aurélia não consente, como outras, que seu cavalheiro a aconchegue ao peito. Entre os bustos de ambos mantém-se a distância necessária para que não se unam com o volver da dança; e tanto que deixam passagem à claridade do gás. 

(continua...)

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