Por José de Alencar (1875)
Um macaco trepava aos últimos ramos de uma árvore, e de lá deixava-se cair, segurando-se pela cauda. Arnaldo assentava de pular como êle de ramo em ramo, e despencava-se do alto. A mãe o metia em panos de sal, e dava-lhe a beber um cozimento de angico; no dia seguinte já êle estava ruminando outra.
Ora metia-se a parar a bolandeira tangida com fôrça, e rodava pelos ares; ora quando a mãe o mandava apanhar gravetos, carregava às costas um grosso toro de sábia, que o atirava ao chão em risco de esmagá-lo; em outra ocasião era o bode em que êle montava, e lá se ia pelos precipícios e desfiladeiros a divertir-se dos sustos da Justa.
Ninguém podia com êle. A mãe com seus ralhos não conseguia senão afligir-se; e se passava o capeta ao cipó, então é que êle endemoniava-se. O capitão-mór não olhava para essas coisas; e o Louredo, conservando uma impossibilidade que nunca se desmentia, bem longe de proibir ao filho essas estrepolias, ao contrário o acoroçoava, deixando-o fazer quanto queria.
Trouxeram uma tarde um cavalo bravo para que o Louredo o amansasse, pis não havia melhor campeador naquela redondeza. O vaqueiro conhecendo que o bicho era manhoso, tratou de amaciá-lo antes de saltar-lhe em-cima.
— Eu quero montar! gritou Arnaldo.
— Estás doido, menino? dizia a Justa, apoderando-se dele por segurança.
— Tu não podes com êle, Arnaldo! disse o pai.
— Ora, se posso!
— Pis monta; aí está.
O menino pulou no cavalo, que desencabrestou-se com êle aos corcovos. Afinal, depois de uma luta que não sustentariam tão bizarramente destros cavaleiros, o animal conseguiu lançá-lo fora, e atirou-o de cambalhota pelos ares.
— Aí está o que você queria, sr. Louredo! gritou a Justa que não cessara de rezar.
— O menino tem sua sina, mulher, respondeu Louredo mui descansado. Se êle escapar das façanhas em que se mete, é porque Deus o protege e quer fazer dele um homem; se não escapar, é melhor que Nosso Senhor o leve para o céu, enquanto não sabe o que é êste mundo.
Outra vez foi um novilho bravo, a que se tinha de torar os chifres. Arnaldo teimou em segurá-lo. O pai desatou o laço do moirão e entregou a ponta ao filho, dizendo-lhe com a voz pachorrenta:
— Toma lá; mas se tu me largas o novilho e o deixas fugir, meto-te o rêlho, cabrinha, tão duro como um osso.
Arnaldo segurou a ponta do laço, enleou-a no pulso para não escorregar, e disse ao pai com o maior topete:
— Largue!
O novilho arrancou pelo campo afora, e o Arnaldo lá foi com êle aos trambolhões. Por fim o menino revirou de todo no chão; e o barbatão levou-o de rasto. Aos gritos de Justa, que vira a cena de longe, adiantou-se o Louredo para livrar o filho dos apertos.
— Vaqueiro, não se meta! Não foi êste o ajuste! griotu Arnaldo para o pai!
O endiabrado menino, que se atirara ao chão de propósito para aumentar a resistência com o pêso do corpo, conseguira afinal fazer fincapé nas raízes do capim e parar o novilho já cansado.
Quando Arnaldo conheceu que o tinha seguro, gritou ao pai:
— Pode torar; que o bicho daquí não sai.
Arnaldo tinha muita vontade de dar um tiro com o bacamarte do pai. Atualmente não se conhece, e talvez já não se fabrique essa espécie de arma, tão estimada outrora no interior e tão proeminente nas lutas fratricidas que ensanguentaram por vezes o interior do Brasil.
O bacamarte, simbolizava até bem pouco tempo ainda a ultima ratio, o direito da fôrça; era como na Europa o canhão, de que tinha com pouca diferença a configuração, pela grossura do cano muito semelhante ao colo de uma peça de artilharia. Havia-os de bôca de sino, que despediam uma chuva de balas e metralhas.
Compreende-se a fôrça que era precisa para suportar o recuo de uma arma destas ao disparar, e o perigo a que se exporia Arnaldo fazendo fogo com o bacamarte do pai, que era dos mais formidáveis.
Um dia em que a Justa não estava em casa, insistindo o menino, o Louredo carregou o bacamarte à meia carga e entregou-o ao filho. Êste sem pestanejar, com uma temeridade de criança, apontou para o ar e puxou o gatilho.
Soou o tiro e o menino revirou de cambalhota, arrojado pelo coice da arma, que por pouco não lhe desarticulou a clavícula. A Justa que chegou deitando a alma pela bôca, tomou o filho nos braços, pôs-lhe umas talas om emplastros, e começou nessa mesma noite uma novena a Nossa Senhora.
No dia seguinte Arnaldo estava de pé; mas andou uma semana de braço na tipóia.
Indo o Louredo para a serra com a mulher e o filho, encontrou o rio cheio. A fôrça d’água era medonha e formava uma torrente impetuosa. O vaqueiro resolveu esperar que passasse a maior correnteza, para atravessar a nado.
Arnaldo, porém, teimou que havia de passar logo. A Justa pôs as mãos na cabeça. O vaqueiro voltou-se para o menino com o mesmo tom sossegado de costume:
— Eu não me atrevo. Se tens topete para tanto, cabrinha, vai com Deus, que eu não te esbarro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.