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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Loredano ouvia estas exclamações rápidas que denunciavam como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quiseram lançar-se em procura do índio, ele os conteve com um gesto. 

Não lhe convinha isto; a morte de Peri era coisa acidental para ele; o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente. 

— O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros. Os aventureiros ficaram pasmados com semelhante pergunta. 

— Ides matá-lo?... 

— Mas decerto! 

— E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que ele é protegido, amado, estimado por aqueles que pouco se importam se morremos ou vivemos? 

— Seja embora protegido, quando é criminoso... 

— Como vos iludis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros julgarão inocente e o defenderão; e não tereis remédio senão curvar a cabeça e calar-vos. 

— Oh! isso é demais! 

— Julgais que somos alimárias que se podem matar impunemente? retrucou Martim Vaz.

— Sois piores que alimárias; sois escravos! 

— Por São Brás, tendes razão, Loredano. 

— Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não podereis vingá-los; e sereis obrigado a tragar até as vossas queixas, porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repito. 

— Pois bem; eu vo-lo mostrarei! 

— E eu! gritou toda a banda. 

— Qual é vossa tenção? perguntou o italiano. 

— A nossa tenção é pedirmos a D. Antônio de Mariz que nos entregue o assassino de Bento.

— Justo! E se ele recusar, estamos desligados do nosso juramento e faremos justiça pelas nossas mãos. 

— Procedeis como homens de brio e pundonor; liguemo-nos todos e vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentário a D. Antônio? 

Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda ofereceu-se; chamava-se João Feio. 

— Serei eu! 

— Sabeis o que lhe deveis dizer? 

— Oh! ficai descansado. Ouvirá boas. 

— Ides já? 

— Neste instante. 

Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre: 

— Não é preciso irdes, pois que vim Aqui me tendes. 

D. Antônio de Mariz, calmo e impassível, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo. 

O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua fisionomia venerável, a firmeza de sua voz e altivez de seu gesto nobre bastaram para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavam. 

Advertido por Peri dos acontecimentos que tinham tido lagar naquela noite, D. Antônio de Mariz ia sair, quando apareceram Álvaro e Aires Gomes. 

O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fora despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavam os aventureiros quando a água começou a invadir as esteiras em que estavam deitados. 

Admirado desse rumor extraordinário, Aires bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigiu-se para a porta para conhecer o que perturbava o seu sono: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave. 

O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquela medida de precaução; seu amigo ignorava como ele. 

Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros à revolta; Aires Gomes percebeu então do que se tratava. 

Agarrou mestre Nunes, encostou-o à parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre seus ombros, e levantando as telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros. 

Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e assentou que o verdadeiro era dar parte a Álvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providências que o acaso pedia. 

D. Antônio de Mariz sem se perturbar ouviu a narração do escudeiro, como tinha ouvido a do índio. 

— Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não perturbemos o sossego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me aqui. 

— Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Álvaro dando um passo para segui-lo.

— Ficai: vós e estes dois amigos dedicados velareis sobre minha mulher, Cecília e Isabel. Nas circunstâncias em que nos achamos, assim é preciso.

— Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe. 

— Não, basta a minha presença; enquanto que aqui todo o vosso valor e fidelidade não bastam para o tesouro que confio à vossa guarda. 

O fidalgo tomou o seu chapéu, e poucos momentos depois aparecia imprevistamente no meio dos aventureiros, que trêmulos, cabisbaixos, corridos de vergonha, não ousavam proferir uma palavra. 

— Aqui me tendes! repetiu o cavalheiro. Dizei o que quereis de D. Antônio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se for de justiça, sereis satisfeitos; se for uma falta, tereis a punição que merecerdes. 

Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emudeceram. 

(continua...)

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