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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Levantara-se e olhara para todos os lados, procurando reconhecer-se, e a custo voltara a si. Dores cruciantes no rosto e nas mãos chamaram-no à realidade das coisas e dos fatos. Sonhara, sem perder de todo a noção do meio. Vira o rio, o céu, as matas, ouvira os ruídos, respirara o odor balsâmico da floresta, mas não sentira aquelas horríveis dores que o estavam pondo quase louco, a agitar-se freneticamente no fundo da montaria. Isto não era sonho, sê-lo-ia o ruído que por último o despertara do letargo?

Macário não estava no lugar em que se assentara a vociferar contra os mosquitos, junto à fogueira, agora quase extinta. Essa ausência inquietava-o.

Chamara e ninguém lhe respondera. Que queria isso dizer?

Era de recear uma desgraça. Desembarcaria para procurar o companheiro.

Mas nesse momento, a algumas braças de distância, vira surgir de dentro da água uma cabeça humana, com os cabelos colados na fronte, e logo à luz das estrelas um braço agitara-se no ar, e um homem nadando entre duas águas, com perícia, aproximara-se da montaria, batendo com as pernas, fazendo barulho para assustar as vorazes piranha pretas.

Com duas ou três fortes braçadas e o auxilio de padre Antônio, Macário de Miranda Vale achou-se dentro da montaria, confortado e risonho. Explicou que se atirara ao rio para fugir às mordidelas dos carapanãs, uma súcia de uma figa, capaz de levar um cristão ao desespero, e que deixando a S. Rev.ma em paz na montaria, o tinham ido perseguir, a ele, pobre sacristão, sobre o seu coxim de folhas. A frescura da água de súbito lhe aplacara as dores, aliviando-lhe o cérebro dos negros pensamentos que o enchiam. Não fosse o receio das dentadas das piranhas, e da morte entrevista na garganta de jacarés enormes, teria prolongado o delicioso banho.

A aurora, aparecendo por entre as altas árvores longínquas, expeliu a noite estrelada com o seu cortejo de terrores vagos e de alucinações cruéis.

Macário, comido de mosquitos, com o rosto, as mãos, o peito e os pés cheios de ampolas, remara silenciosamente, sentindo crescer no cérebro, como a fervura da água que se levanta numa caçarola, o horror daquela tresloucada tentativa do padre vigário. A continuação da viagem que o padre resolvera logo pela manhã, como se não estivesse fatigado, parecia ao sacristão um sacrifício superior às suas forças. Não. Aquilo havia de terminar. Não era possível que a sua estúpida passividade chegasse ao ponto de sujeitar-se a passar outra noite como aquela que o pusera todo varioloso. Não. Antes a morte!

E Macário, possuído de idéias sombrias, olhava de esguelha para o senhor vigário, procurando descobrir na fisionomia impassível do jovem sacerdote um indício de desânimo, um leve sinal de perturbação interior, que mostrasse hesitação no insensato alvitre de se deixar comer de mosquitos antes de ser devorado pelos mundurucus! Nada. O idiota do padre era inabalável! pensava o sacristão, com indignação a custo concentrada, perdendo mentalmente o respeito àquele homem, a cujas ordens cegamente obedecia.

Padre Antônio sentado à popa, governando o jacumã, não perdia nenhum dos olhares observadores que o Macário lhe atirava, na persuasão de que o vigário não lhe notava os movimentos. Padre Antônio sentia-se salteado por saudades vagas do tranqüilo viver do presbitério, mas escondia-as bem no fundo do coração cuidando em vencê-las como tentações do demônio, sempre em viva guerra com a paz da sua alma e o repouso do seu corpo. As vigílias, os dias sem descanso suficiente, a má alimentação e ainda o visível mau humor do companheiro, começavam a exacerbarlhe a bílis, causando-lhe impaciências nervosas e uma raiva surda sem motivo nem objetivo certo. As inflamações do rosto e das mãos incomodavam-no muito. O sol as irritava com os seus beijos de fogo, produzindo um ardor contínuo que ameaçava transformar-se em febre. Ia também silencioso o padre, puxando molemente o remo, pensando nos dias que ainda lhe faltavam para chegar ao seu glorioso destino.

Às oito horas da manhã o Macário esquecera momentaneamente o desgosto e lembrara que eram horas de almoço. Justamente achavam-se perto duma pequena ilha verdejante de muritis e tucumãs, onde poderiam encontrar sombra e frescura para repousar depois do almoço, porque o sol já castigava tanto que - S. Rev.ma perdoasse -era impossível suportá-lo com o remo na mão. Para almoço pouco tinham. Era o triste pirarucu de sempre, que fazia suspirar pela gorda carne de vaca e pela gostosa farinha-d'água em que o costumava envolver com limão e pimenta para depois regá-lo com o vinho do Filipe do Ver-o-peso... Mas, Senhor Deus, nem valia a pena falar em coisas cuja lembrança só servia para tornar mais sensível a miséria do presente. Comesse todavia S. Rev.ma, que antes pirarucu do que nada.

Padre Antônio recusara o almoço, mas consentira em desembarcar na ilha para fugir ao ardor da canícula e mesmo descansar um pouco à sombra das árvores, a fim de recuperar a noite perdida.

(continua...)

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