Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Aproveitaram o passeio par comprar a mobília. O provinciano recebera nesse mês dinheiro do Norte e retirara mais algum da casa do Campos; João Coqueiro levou-o a uma loja de trastes e escolheu ele próprio o que podia convir ao outro; isto é, uma cômoda, um lavatório, uma boa cama de casados, uma secretária, duas estantes, um velador, e seis cadeiras; tudo de mogno e trabalhado a gosto moderno.

Estes arranjos pediam outras coisas; escolheram-se também dois quadros para o intervalo das portas, um belo espelho de parede, um relógio de pêndulo, tapetes, capachos e escarradeiras.

* * *

O Coqueiro, muito empenhado na condução dos trastes, havia-se afastado alguns passos de Amâncio, quando este sentiu baterem-lhe no ombro. Era o Paiva Rocha.

— Oh! exclamou, satisfeito com o encontro.— Como vais tu? Há quanto tempo não nos vemos!... Que é feito de ti?

— Ai, filho apoquentado! Respondeu o Paiva. Ultimamente tem sido uma enfiada de coisas más!...Há dois meses que não recebo dinheiro do correspondente; tinha aí um lugar de revisor numa folha e os ladrões passaram-me a perna em mais de duzentos mil-réis; além de que, a besta do diretor lá da escola lembrou-se agora do exigir uma infinidade de maçadas e obrigar-nos a despesas impossíveis! O diabo! E, mudando de tom, perguntou como ia Amâncio; onde se metera, que ninguém o via?

O outro prestou contas de sua vida, expôs os pormenores de sua moléstia, falou nos incômodos que dera à família do Coqueiro, principalmente a D. Amélia, que, por sinal, era uma excelente menina.

— Maganão!... disse o comprovinciano, esbarrando-lhe intencionalmente no braço.

Amâncio repeliu com febre aquela insinuação. O colega fazia uma tremenda injustiça, tanto a ele, Amâncio, como à pobre rapariga!

— Ora, filho! Queres tu agora dizer a mim o que é a gente do Coqueiro!...

Amâncio abriu grandes olhos.

— Morde aqui! Acrescentou o outro, apresentando-lhe o dedo.

E em troca de um gesto negativo do amigo:

— Não queres falar por ora, e fazes tu muito bem! Mas é impossível que a tua ingenuidade chegue ao ponto de tomares a sério a irmão do Coqueiro, — a Amélia dos camarões!...

— Juro-te que, até aqui, só a tenho tratado com todo o respeito!

O outro soltou uma risada.

— É fato! Insistiu Amâncio, aborrecido já com aquela troça do companheiro, mas ao mesmo tempo feliz por imaginar que as suas esperanças sobre a rapariga eram perfeitamente justificáveis.

— Pois, se é fato, acredita que tens representado um papel de tolo! Fazem-te a barba, filho!

Amâncio, então, para provar a pureza de sua conduta, pintou o estado em que se achara ultimamente, — entrevecido de reumatismo, sem préstimo para nada. E contou o que sofrera com as bexigas.

— Ora, dize-me cá...volveu o outro em tom de segredo. — O Coqueiro já te não tem dado algumas facadinhas...Confessa...

Amâncio, nem só confessou, como disse até o dinheiro que por várias vezes emprestara ao senhorio.

— Hein?! Bradou o Paiva, fazendo-se muito fino. — Queres mais claro?...E ainda tens escrúpulos, criança! Pois olha que te não fazem nenhum favor — tu pagas, filho, e pagas bem!

E lembrou que não seria mau tomarem alguma coisa num botequim próximo. O outro declarou que estava ali à espera do Coqueiro.

— Deixa lá o Coqueiro, homem! Tens medo de ir só para casa?...

— Mas é que não sei se me fará mal beber alguma coisa. Ainda estou em uso de remédios.

— Não sejas idiota! Exclamou o Paiva, puxando-o pelo braço.

Amâncio deixou-se levar, não tanto pelo prazer da companhia, como pela circunstância de se livrar do Coqueiro, o que lhe dava esperanças de ver Lúcia ainda essa tarde.

No café, defronte dos copos, a conversa voltou de novo à gente de Mme. Brizard.

— Gentinha! qualificou o Paiva, atirando a palavra com o desprezo de quem lança fora o sobejo de um copo.

E, depois, entornando os lábios, numa obstinação torpe:

— A questão está no pagamento!

Amâncio riu. Sentia-se feliz; aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento, os cálices de xerez, as palavras degotadas do Rocha; tudo isso lhe picava o espírito com uma pontinha de alegria devassa. Seus gostos, suas tendências luxuriosas, volviam-lhe em revoada, como pássaro de arribação. Ficou expansivo, disposto aos desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se passara com ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras de Amelinha com sua pessoa, os pequenos cuidados amorosos, as pequeninas frases significativas; narrou minuciosamente as cenas com Lúcia e disse que, ao sair do café, iria visitá-la à Tijuca.

— Está claro! Trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca do chão de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os pés cruzados. — Eu, no teu caso, já teria desforrado melhor os cobres!

— Achas então que eu devo?...

— Ora, filho, é o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes temos conversado! Eu cá só acredito numa castidade — a da velhice!... tirando daí... e concluiu a sua idéia com um gesto feio.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7677787980...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →