Por Aluísio Azevedo (1897)
E, tomando a que a ele próprio era dirigida, avidamente a abriu, depois de acender um bico de gás, em vez de abrir as janelas.
Logo com ver as primeiras palavras, um estremecimento nervoso lhe percorreu o corpo.
Tornou a assentarse, e concentrouse na seguinte leitura:
"Gabriel,
"Perdoame. Sou muito menos culpada do que é do teu direito acreditares.
"Enquanto me foi possível consagrarte todo o amor de mulher que em mim havia, deime inteira aos teus braços e à tua boca; fui tua nos teus longos dias de tédio, fui tua nas tuas ligeiras noites de gozo. Hoje, porém, que te amo mais talvez, tudo isso me é vedado por uma sinistra transformação que se apossou do meu ser, abalandoo até na sua própria essência. Este corpo que beijaste com tanto amor de homem, só tem hoje de mulher a forma primitiva, habitao agora a alma de um demônio sexual e lúbrico, a quem desgostam as triviais carícias masculinas.
"Ë minha carne rebelde repugna agora o rijo contacto da musculatura dos hércules, e sorri ao doce e curvilíneo afago da linha dos ganimedes. A estrela que me viu nascer foi Vênus, mas Amor não é para mim um nu e meigo infante de olhos vendados, é uma frívola boneca, cheia de rendas e fitas.
"O Brasil, verde cru e úmido, sufocame; a sociedade em que nasci repeleme e eu rejeito a única que me abre o seio; o homem, qualquer que ele seja, encheme de desprezo por mim e por ele. Todavia, entre esses duros e barbados dominadores da fêmea, eras tu, meu pobre amigo, o menos vaidoso, o menos covarde e o menos egoísta. Mas, nem por isso deixas de ser homem, e eu te fujo, para te não ultrajar com uma ternura que não pertencer ao teu sexo.
"Será aberração moral? Será depravação física? Seja o que for, não poderia eu de hoje em diante ficar ao teu lado, sem te enganar a todos os momentos. Fujo para longe de nós dois, na esperança de viver entre desconhecidos e separada de mim mesma. Uma multidão de estrangeiros é o mais completo isolamento em que eu conheço andar entre eles é vagar entre sombras de estátuas. Terás ao menos no teu abandono a consolação de que nunca pertencerei a outro homem; este corpo que te arranco das mãos jamais cairá nas garras de outro dono. Ah! isso jurote eu pelos olhos e pelos cabelos de minha Laura! E adeus.
"O que aí vai escrito, é a expressão franca da verdade. Despejei o coração até ao fundo para ficar mais leve, e fugirte mais ligeira; bastame o preço que lá levo do teu dinheiro! Tens que me absolver com o teu perdão, ou me amaldiçoar com uma perseguição judicial. Não consultes para esse fim o teu coração, consulta só o teu espírito, e, conta, no primeiro dos casos, com o meu reconhecimento de bom camarada. — Ambrosina."
Gabriel soluçava ao terminar a leitura. Só então erguendo o rosto, deu com Jorge, que havia entrado sem ser percebido.
— Caramba! disse este. O senhor ainda aqui?! Pois não partiu?!
Gabriel respondeu com um gesto desabrido, e apontoulhe para o toucador onde se achavam as cartas.
— Pois o tal Melo está seguro até à meianoite! acrescentou o cocheiro, tomando a carta que lhe era dirigida. Mas o senhor dessa forma não pilha o vapor!...
Gabriel não respondia, chorava encostado a um móvel, com a cabeça escondida nos braços.
Jorge abriu à carta, sobressaltado por ter reconhecido a letra de Laura.
É proporção que lia, uma terrível palidez ganhavalhe o semblante. Os olhos foramselhe dilatando com uma expressão de espanto e desespero, os lábios se contraindo, as ventas se distendendo, até que da fronte lhe começou a porejar o frio suor das grandes agonias.
De repente, passando da palidez a uma vermelhidão apoplética, escancarou a boca com um bramido de dor, e caiu de borco sobre o soalho.
A casa tremeu, como se houvesse desabado ali no chão um colosso de bronze.
XXXI
DESTROÇOS DA TEMPESTADE
A carta que lançou por terra o cocheiro Jorge era uma despedida da filha, declarando a seu modo os motivos que a arrastavam naquela viagem clandestina. Educação, temperamento, insuficiência de meio social, tudo isso ressaltava das palavras que a infeliz dirigia ao pai; este porém, nada viu nem compreendeu senão que a filha abandonava a casa paterna, e tanto bastou para fulminálo.
Laura, todavia mostravase na carta muito comovida e fazia ardentes promessas de boa conduta. Nada serviu para suavizar o golpe.
O pobre homem permanecia de bruços no chão. Gabriel correu a socorrêlo, arrastouo até a cama, e conseguiu com dificuldade estendêlo sobre ela. Jorge não dava acordo de si, e tinha o rosto congestionado.
A situação tornavase cada vez mais penosa. Gabriel chamou várias vezes por ele, sacudiulhe vigorosamente os ombros. Nada! o homem continuava inanimado, a tirar da garganta uns grunhidos aterradores.
O rapaz correu então à sala, abriu as janelas. Estava aflito! precisava de alguém que se encarregasse do cocheiro, porque ele não podia deixar de ir a bordo. Mas o silêncio da rua desesperouo. A tarde fechavase de todo, e os primeiros lampiões constelavam o arrabalde com a sua luz ainda vermelha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.