Por Franklin Távora (1878)
Vendo o comandante da tropa, Coelho correu a ele, chamou-o de parte e falou-lhe à puridade. Quando a cabo de alguns minutos se separaram, estava assentado o plano do ataque. Luiz Soares devia levar suas primeiras investidas contra a frente da casa do sargento-mór, enquanto o negociante a atacaria pelo lado oposto. Entre dois fogos, o soberbo fidalgo cairia no poder dos inimigos sem grande custo, e tanto bastaria para que cessasse a resistência, visto que nenhum dos outros, nem Cosme nem Filipe, nem Jorge Cavalcanti, nem Manoel da Lacerda, em uma palavra nenhum deles tinha gente para fazer frente a seus adversários. Então tudo tornar-se-ia fácil. O povo já estava solto; a vila abandonada por mais da metade dos habitantes pacíficos; seguir-se-ia a revolta como se seguiu. As tropas invasoras engrossariam com os subsídios que desse a insurreição, e tomariam sem perda de tempo o caminho do Recife, a fim de romper o cerco.
Estas foram as razões que publicou Coelho para autorizar o seu plano. Ele porém tinha a sua razão particular em querer que prevalecesse este a outros planos indicados pelo destemido Paraibano. O leitor já sabe qual ela seja. Acabar com João da Cunha era o seu fim, a sua preocupação de todo o instante. Acabado ele, poderia finalizar a guerra, que ele não teria por isso pesar nem descontentamento.
No momento em que, dando a volta da rua, descobriram os fidalgos, aos primeiros clarões da manhã, a vasta multidão, superior a seiscentos homens, uma idéia assaltou incontinenti o espirito de Bezerra. Com sua lúcida previsão a que devia tantos sucessos felizes no período de agitação de que se trata, concebeu logo ele um projeto de oposição. - Um cavalo já para Lourenço.
E voltando-se para o rapaz, disse-lhe:
- Tu me acompanharás. Não preciso de mais ninguém.
- Aonde tencionais ir, Cosme? perguntou Filipe Cavalcanti.
Vou a Jorge Cavalcanti, que já pode abandonar a sua fortificação, visto que as forças inimigas, a que ele pretendia impedir a entrada, já estão tomando conta da vila. Lourenço correrá ao Tanquinho a dizer a Manoel de Lacerda que venha em nosso socorro. Com a gente que cada um destes amigos tiver junta, bateremos esses bandidos. Só o que desejo me façais, João da Cunha, é que sustenteis a resistência até que eu chegue. Bastam-me cinquenta, quarenta, vinte goianistas da gema para levar estes salteadores a panos de espada, este canalha a patas de cavalo. Em menos de dois minutos, Cosme e Lourenço, tomando pela Rua-do-meio, corriam à desfilada. O momento era decisivo.
Chegando à sala, Filipe Cavalcanti, Luiz Vidal e João da Cunha deram com um espetáculo novo e singular. Cada uma das mulheres que ai se achavam – eram oito, a saber d. Damiana, Marcelina e seis mulatas escravas – mostrava-se aparelhada para travar a luta homérica. A capitoa era a mulher do sargento-mór. Seu espirito belicoso tinha-se comunicado a todas as outras, excetuada Gertrudes, velha que a amamentara e que a um canto da sala tremia de medo. Sobre os bufetes, as mesas, os estrados viam-se açafates cheios de cartuchos, obra das suas mãos e das de algumas de suas mucamas durante os dias e as noites anteriores.
- Que é isto, senhora? perguntou o sargento-mór à sua mulher, tanto que seus olhos leram na face dela a expressão da energia intima, reflexo do seu sangue e do seu orgulho.
- De que vos admirais? Mandei trazer para a sala as armas e munições que estavam nas camarinhas. Será ainda cedo para aparecerem?
-Cedo não é, disse o sargento-mór. Mas é que em mãos de uma dama e de escravas elas se me afiguram postas com muita antecipação. Em ocasiões como esta, e em havendo ainda homens, as mulheres não devem usar outras armas que os seus rosários.
- Tem vosmecê razão, seu sargento-mór, disse a velha. Eu cá por mim não posso entender-me com armas de fogo. As minhas armas são d’água – são as lagrimas. As de fogo, quando alguma vez as tenho, como agora debaixo das mãos, já me parece que vão estourar e despedaçar-me.
Gertrudes tinha de feito nesse momento a mão posta sobre o cano de um mosquete, que estava a seu lado sobre o estrado. Mal acabara de falar, um estrepito estranho e inesperado rebentou perto dela. A anciã recuou espavorida. Pareceu-lhe que se confirmava seu receio. Dera causa ao ruído uma bala inimiga que, batendo no espelho da sala, o pusera em farelos.
- Credo! Virgem santíssima! Exclamaram quase ao mesmo tempo as mulheres.
D. Damiana tinha corrido para junto do marido, como quem queria defendê-lo.
-Correis aqui perigo de vida, disse Felipe Cavalcanti. O meu parecer é que vos retireis ao interior da casa, onde estareis mais resguardadas das balas perdidas. Ide aí encomendar nossas vidas a Deus, e pedir para as nossas armas a vitoria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.