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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Recordações da mocidade? 

O famoso guerreiro não recuou; porém jamais carga de cavalaria contra um quadrado ou uma trincheira, debaixo do fogo cruzado de uma bateria de canhões, custou-lhe como aquela valsa que ele dançou decidido a morrer como um bravo. 

 

IV 

 

Aurélia estava ocupada em reunir os diversos casais e enviá-los ao meio da sala; desembragadores de todo o tope e calibre, conselheiros carunchosos, viscondes mofados, marqueses carrancas: tudo tratava de executava-se da melhor vontade, que era o meio de tornar mais leve a penitência. 

Nisto chegou a Lísia Soares ao braço de Fernando. A travessa trazia nos lábios um sorriso maligno; o olhar beliscava como um alfinete. A travessa trazia nos lábios um sorriso maligno; o olhar beliscava como um alfinete. 

- Está muito entretida com os outros e não se lembra de si, disse ela. 

- Como? perguntou Aurélia voltando-se. 

- Não disfarce. A justiça começa por casa; aqui está seu marido. Dê o exemplo. 

Aurélia compreendeu a vingança da amiga, despeitada por não valsar com Alfredo Moreira. 

Desde a primeira vez que apareceu na sociedade, depois do luto de sua mãe. Aurélia que apesar da palavra afouta e viva, tinha ocasto recato de sua pessoa, resolveu não valsar para arriscar-se a encontrar um desses pares que põem ao vivo a comparação poética da trepadeira enroscada ao musgoso. 

Declarou, portanto, que não sabia valsar, e que nunca poderia aprender poque o giro rápido causava-lhe vertigem. Havia nesta segunda parte um fundo de verdade. Quando valsava no colégio com as amigas, sentia tão vivo prazer nessa dança impetuosa, que deixava-se arrebatar e desprezando o compasso da música volvia com uma velocidade prodigiosa até que o atordoamento a obrigava a sentar. 

Convencida de que não sabia realmente dançar, Lísia lembrou-se de tomar uma desforra obrigando-a a fazer triste figura na sala, ou então a retratar-se de sua esquisitice e acabar com a tal valsa de casados. O que mais estimulara a moça, fora a suspeita de que Aurélia fizera aquilo por maldade, e só para privá-la de dançar com o Moreira. 

Nisto era injusta. A razão que movera Aurélia, não sei; mas que ela nesse momento não se lembrava da existência da Lísia e do Moreira, disso posso dar certeza. 

- Não seja má, Lísia! disse Aurélia com um modo queixoso, que não ocultava de todo o fino motejo do olhar. 

- Nada, minha cara; você não dispensa ninguém, tenha paciência.

- Eu não sei valsar! 

- Aí é que está a graça. Meu pai também não sabia. 

- Ela sabe, era meu par no colégio, observou uma senhora. 

- Há de dançar. 

- Pena de talião, dizia um velho advogado gotoso que voltava da valsa tão estafado como nunca o deixara a mais complicada defesa do juro. 

- Caso de justa represália! Acudia um velho diplomata que fizera sua carreira em eterna disponibilidade, sem trocadilhos. 

- A coroa cede ante a opinião no Brasil eram a chapa e o cunho da mesma moeda em que ele recebia o salário. 

As senhoras insistiam para se despicarem da entrega que lhes fizera a dona da casa; as moças por pirraça; e os rapazes pelo desejo de quebrar o encanto a Aurélia, e terem-na daí em diante como par certo de valsa. 

- Não é preciso essa revolução. Eu me submeto, disse Aurélia, curvando gentilmente a cabeça. 

Dirigindo-se ao marido que estava defronte e a quem a Lísia não consentira que se retirasse, tomou-lhe resolutamente o braço e deixou-se conduzir ao meio da sala. 

- Por que se constrange? Não quer valsar; eu tomo sobre mim a recusa, segredou Seixas. 

- É questão de vaidade. Compreende a força que tem para nós mulheres, este nosso ponto de honra? tornou Aurélia também à meia voz. 

- Neste momento, não; não compreendo. 

- Veja a Lísia como está saboreando o meu vexame de não saber valsar, e o fiasco que me espera? Demais... 

Sua voz teve uma note vibrante. 

- Demais, o senhor pode pensar que tenho medo. 

Aurélia pousara a mão no ombro do marido, e imprimindo ao talhe um movimento gracioso e ondulado, como o arfar da borboleta que palpita no seio do cacto, colocou-se diante de seu cavalheiro e entregou-lhe a cintura mimosa. 

Era a primeira vez, e já tinham mais de seis meses de casados; era a primeira vez que o braço de Seixas enlaçava a cintura de Aurélia. Explica-se pois o estremecimento que ambos sofreram ao mútuo contato, quando essa cadeia viva os prendeu. 

Balançava-se o airoso par à cadência da música arrebatadora; e todos os admiravam, menos Lísia Soares que ralava-se de despeito ao ver a silfidez e graça com que Aurélia valsava, triunfando, quando ela esperava humilhá-la. 

Aurélia tinha nessa noite um vestido de tule cor de ouro, que a vestia como uma gaze de luz. Com o voltear da valsa, as ondas vaporosas da saia e a manga roçagante do braço que erguera para apoiar-se em seu par, flutuavam como nuvens diáfanas embebidas de sol, e envolviam a ela e ao cavalheiro como um brilhante arrebol. 

Parecia que voavam ambos arrebatados ao céu por uma assunção radiosa. 

A cabeça de Aurélia afrontara-se, atirada para o ombro com um gesto sobranceiro e 

(continua...)

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