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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

O espetáculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se ao leito. 

Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o índio mordendo os lábios com força, reprimiu a voz, que se escapou apenas num som rouco e plangente. Então prendendo-se à árvore com as pernas, o índio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco. 

O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço tremeu só com a idéia de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecília. 

Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem com o seu contato o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa horrível profanação. 

A flecha partiu rápida, pronta e veloz como o seu pensamento; a mão do italiano estava pregada ao muro. 

Foi só então que Peri refletiu que teria sido mais acertado ferir essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço; a segunda seta partiu sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se a dor não o obrigara a curvar-se.  

VI 

REVOLTA 

 

Quando Peri acabou de refletir sobre o que passara, ergueu-se, abriu de novo a porta, fechou-a por dentro e seguiu pelo corredor que ia do quarto de Cecília ao interior da casa. 

Estava tranqüilo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Rui Soeiro não o incomodariam mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que àquela hora todos os aventureiros deviam estar acordados; mas julgou prudente prevenir D. Antônio de Mariz do que ocorria. 

A esse tempo Loredano já tinha chegado à alpendrada, onde o esperava uma nova e terrível surpresa, uma última decepção. 

Lançando-se do quarto de Cecília, sua intenção era ganhar o fundo da casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus cúmplices, raptar a menina, e vingar-se de Peri. 

Mal sabia porém que o índio tinha destruído toda a sua maquinação; chegando ao pátio viu o alpendre iluminado por fachos, e todos os aventureiros de pé cercando um objeto que não pôde distinguir. 

Aproximou-se e descobriu o corpo de seu cúmplice Bento Simões, que jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados das órbitas, a língua saída da boca, o pescoço cheio de contusões; todos os sinais enfim de uma estrangulação violenta. 

De lívido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a Rui Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providência caia sobre as suas cabeças; conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audácia e o desespero o podiam salvar. 

A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéia digna dele: ia tirar partido para seus fins daquele mesmo fato que parecia destruí-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança. 

Os aventureiros espantados sem compreenderem o que viam, olhavam-se e murmuravam em voz baixa fazendo suposições sobre a morte do seu companheiro. Uns, despertados de sobressalto pela água que corria das talhas, outros que não dormiam, apenas admirados, se haviam erguido, e no meio de um coro de imprecações e blasfêmias acenderam fachos para ver a causa daquela inundação. 

Foi então que descobriram o corpo de Bento Simões e ficaram ainda mais surpreendidos: os cúmplices, temendo que aquilo não fosse um começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro. 

Loredano percebeu o que passava no espírito dos aventureiros: 

— Não sabeis o que significa isto? disse ele. 

— Oh! não! explicai-nos! exclamaram os aventureiros. 

— Isto significa, continuou o italiano, que há nesta casa uma víbora, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.

— Como?... Que quereis dizer?... Falai!... 

— Olhai, disse o frade apontando para o cadáver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira vítima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Rui Soeiro? 

— É verdade!... onde está Rui? disse Martim Vaz. 

— Talvez morto também? 

— Depois dele virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os cristãos tenham sido sacrificados. 

— Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino. É preciso um exemplo! O nome!...

— E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais? quem nesta casa pode desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame? 

— Peri?... exclamaram os aventureiros. 

— Sim, esse índio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua vingança! 

— Não há de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou Vasco Afonso. 

— Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê cuidado! 

— E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça. 

— E justiça será feita. 

— Neste mesmo instante. 

— Sim, agora mesmo. Eia! Segui-me. 

(continua...)

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