Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sim; mas ao menos a minha loucura poderá agora ser-me útil.
– Como?...
– Escrevi o que se tem passado comigo...
– A história do teu amor?...
– Sim...
– Um romance?!
– Não... uma verdade.
– Como não?... pensas que os romances são mentiras?...
– Tenho certeza disso.
– Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verdadeiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.
– Pelo que ouço, d. Mariquinhas, tu já escreveste!
– Não, mas conversei já com um moço que escreve. Vamos porém ao nosso caso; deixa ver o teu romance.
– A minha história, tornou Celina, que abrindo a gaveta da mesa tirou algumas folhas de papel, e entregou-as com mão trêmula a Mariquinhas.
– “História do meu amor”, disse esta lendo; ah! eu tinha adivinhado o título.
– Peço-te que leias para ti só; eu me envergonharia muito se te ouvisse ler alto.
Mariquinhas começou a leitura da história do amor de Celina.
A “Bela Órfã” acompanhava com os olhos todos os movimentos, todas as impressões que aquela leitura produzia em sua amiga, corando se esta sorria, animando-se, tremendo, e confundindo-se segundo as expressões fisionômicas da leitora.
Quando Celina viu que os olhos de Mariquinhas volviam-se correndo pelas últimas linhas da derradeira página, abaixou de novo a cabeça, envergonhada e confusa.
– Bravo, d. Celina! estás em bom caminho para romancista; mas repara que não podes aproveitar muito no nosso país.
– Não zombes.
– Falo séria; porém, dize que destino pretendes que tenham estes papéis?... – Que destino?... o fogo.
– O fogo?!
– Sim; queimá-los-ei, respondeu soltando um suspiro a “Bela Órfã”.
– Não; não cometerás um parricídio. Quando tua mão se erguer para lançá-los às chamas, tua alma, eu o juro, cantará os versos de Torquato: “Ah! não seria possível”.
– Pois então que poderia eu fazer deles?...
– Quem sabe?... estes papéis guardam-se. É possível que cheguem um dia às mãos do feliz mancebo que te moveu a escrevê-los.
– Oh! Deus me livre!...
As duas moças calaram-se de repente, sentindo que alguém subia a escada.
Celina guardou os papéis na gaveta donde os tinha tirado.
Apareceu uma escrava à porta do quarto.
– O que é?... perguntou Celina.
– O sr. Salustiano, respondeu a escrava.
– Dize-lhe que meu avô e minha tia saíram, respondeu “Bela Órfã”.
– Mas que nós descemos já para recebê-lo, acrescentou Mariquinhas.
– Não!
– Sim! vai: dize-lhe que o vamos já receber.
A escrava desceu.
– Que queres fazer, d. Mariquinhas?...
– Conversar, divertir-me.
– Oh! porém tu me comprometes; este homem é um maldito impertinente...
– Melhor.
– Requesta-me... diz-me loucuras.
– Ótimo.
– Eu o aborreço.
– Por isso mesmo.
– Que queres pois?...
– Rir-me.
– Então entendes que devo...
– Zombar dele.
– Como?...
– Como te parecer.
– Mas eu não sei fingir.
– Pois desengana-o; isso também me diverte. Ainda não vi como fica o rosto de um desenganado.
– Tu és louca.
– Vamos!
– Hei de arrepender-me deste passo.
– Ao contrário, prevejo que terás de agradecer-me. Vamos! Não te lembras que o sr. Salustiano nos espera?
Mariquinhas tomou a mão da “Bela Órfã”, e levou-a quase à força para o andar inferior.
Quando as moças acabavam de descer a escada, correu-se a cortina que tapava a portinha do fundo, por onde se comunicavam as câmaras de Mariana e de Celina.
Um homem aproximou-se com precaução e cuidado da mesa, junto da qual tinham as moças conversado.
A gaveta dessa mesa estava fechada, mas Celina havia-se esquecido de tirar a chave.
O homem abriu a gaveta, tirou dela os papéis que continham – a história do amor da “Bela Órfã” – e saiu com tanto cuidado e precaução como entrara. Esse homem era o velho Rodrigues.
CAPÍTULO XXVIII
ELAS E ELE
ENTRARAM as duas moças na sala, e Salustiano, que se tinha recostado a uma janela, voltou-se para recebê-las.
Sentaram-se todos três.
Era bem de estudar-se a expressão fisionômica de cada uma daquelas três personagens.
Celina, que havia sido trazida quase à força para a sala, mostrava-se contrafeita e acanhada; sentou-se bem unida a Mariquinhas, cuja mão apertava como procurando uma defesa.
Salustiano esforçava-se para ostentar a impassibilidade de que se jactava; mas não podia esconder de todo a comoção que sentia na presença da moça que amava, e o quanto o contrariava uma terceira pessoa, que ele não queria encontrar ali naquela ocasião.
Mariquinhas completava o grupo. No meio dos dois desapontados aparecia risonho, belo e malicioso o rosto da interessante moça. Seus olhos vivos e travessos confundiam realmente Salustiano, que, a pesar seu, já não tinha sarcasmos para suas palavras, nem para seus sorrisos.
– Sinto havê-la incomodado... tinha dito Salustiano muito desenxabidamente.
– Oh! não, não nos incomodou, respondeu Mariquinhas; deu-nos ao contrário muito prazer.
– Seria isso possível?... perguntou o moço, fitando os olhos em Celina.
– Pois ainda duvida?... tornou a primeira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.