Por Inglês de Sousa (1891)
Os insetos voltavam, que voltassem! Já não lhes temia a fúria redobrada dos ataques. Não tentava afugentá-los, nem mesmo procurava resguardar-se das suas agudas ferroadas. Aquele tormento mandava-lho Deus para provar-lhe a constância e ânimo sofredor. Só tinha um pesar. Era o de ter quase desesperado com aqueles pequenos incômodos que nada eram em comparação com os incríveis sofrimentos suportados pelos santos do cristianismo. Naquele mesmo dia treze de agosto, cuja noite tranqüila padre Antônio atravessava à margem do Canumã, celebrava a Igreja de Roma a morte gloriosa de S. Cassiano, martirizado pelos ponteiros de seus próprios discípulos. E como pretender a palma do martírio um padre que nem sabia sofrer ferroadas de carapanãs?
A ação forte e dominadora duma fé ardente absorvera a vitalidade física de padre Antônio de Morais, causando-lhe um torpor profundo, mergulhando-o numa abstração completa. A recordação do martírio sobre-humano dos santos excitara no seu cérebro a sensação correspondente, que o sofrimento físico avivava, reagindo sobre a imaginação. Esquecera o presente. Via-se entre os mundurucus a pregar o Evangelho, a reduzi-los à civilização e à fé do catolicismo. O rio, a canoa, o céu estrelado, o Macário e os carapanãs varreram-se-lhe da memória. Mergulhara num sonho de catequese e de martírio em que, atado ao tronco dum gigantesco cedro, crivado de flechas ervadas, vertendo sangue por todos os poros, e sentindo a vida esvair-se pelas feridas ao passo que o veneno mortífero subia-lhe lentamente ao coração, falava ao gentio as doces palavras de Jesus.
Pouco a pouco aquele delicioso torpor fora-se apoderando de todas as suas faculdades, e o sonho continuara como realidade tangível, em que encontrava um gozo intenso. Recostara-se à popa da montaria.
Cerrara os olhos. Cruzara as mãos no peito e entregara-se à suprema felicidade de sentir-se martirizado por amor de Deus Crucificado. Os insetos, aproveitando a passividade daquele corpo, picavam-lhe o rosto, as mãos, o peito a meio descoberto pela abertura da camisa. Gotas de sangue vermelho cobriam-lhe as faces salpicadas de pontinhos pretos, uma nuvem de muriçocas aureolava-lhe a fronte, coroada de cabelos negros como a treva da noite que os envolvia.
À dúbia claridade das estrelas e ao reflexo das chamas da fogueira da praia, o sangue brilhava como rubis preciosos, e o vulto grande do padre destacava-se do fundo da humilde montaria numa atitude tranqüila e repousada, que o Macário invejava, como se houvera cedido ao sono embalado pelas auras da fresca madrugada, ao som duma música divina.
Um odor forte e balsâmico chegava da floresta, e misturando-se às emanações úmidas e agrestes da beira do rio, enchia o ar dum perfume oriental de nardo, sândalo e canela, que inebriava os sentidos, despertando vagos desejos dum gozo indefinido. A água corria docemente com um sussurro de regato coando por sobre leito de folhas, pelo leve embaraço que o estirão punha à correnteza desviada do seu curso; e as sardinhas, fugindo à voracidade dos peixes em caçada noturna, faziam às vezes estremecer a toalha do rio em pequenos círculos concêntricos que se desfaziam ao tocar na corrente, brilhando como lâminas de cristal à escassa luz do firmamento. Sobre uma moita de taquaris, perdida no meio dos aningais da outra banda, o reflexo da fogueira punha tons quentes de ouro queimado, e essa réstia de luz, caindo até meio rio, tonteava as piranhas pretas fazendo-as saltar fora da água em cardumes assustados.
Todos esses pequenos ruídos a modo que ainda tornavam mais profundo o grande silêncio do deserto, esmagador e terrível.
Sentindo-se num misto singular de ilusão e realidade, que no vago conhecimento do meio ambiente o conservava embebido no sonho de martírio, padre Antônio permanecia imóvel, impassível, sorrindo sob as dores agudas, fruindo inconcebível bem-estar, um prazer estranho, uma volúpia doce no castigo do seu corpo vigoroso por pequeninos insetos, que em miríades compactas cobriam-lhe o rosto e as mãos, saciando-se do seu sangue. As picadas eram um excitante do Amor Divino. E quando o sangue lhe corria vagarosamente pelo rosto abaixo, davalhe uma sensação de alívio e de frescura, que lhe punha nos nervos um agradável estremecimento. O calor ocasionado pelo afluxo do sangue ao rosto, o cansaço, a insônia forçada, o silêncio da noite e o cheiro sensual da floresta, trazido por uma brisa refrigerante, perturbando-lhe o cérebro desequilibrado, lançavam-no numa espécie de alienação mental, no puro subjetivismo dos mártires e dos loucos...
De repente o ruído dum corpo atirado ao rio arrancara-o à coma santa em que jazia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.