Por Domingos Olímpio (1903)
Luzia foi subindo após eles, sem esforço, lentamente, até à primeira volta da ladeira, daí em diante cavada na aresta das rochas, talhadas, a prumo, sobre o grotão profundo. Desse sítio agreste, descortinou o panorama do sertão, cinzento de mormaço, terminando no recorte azulado das serranias, ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas de catedral gótica, os picos, que eriçam as crateras extintas dos olhos-d’água do Pajé. Uma facha verde-escuro, serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminável renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque; depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade em agrupamento informe, apenas esboçado, as casas das fazendas abandonadas, ponteando, aqui e ali, a planície devastada e quieta, como um imenso pântano.
Enternecida na contemplação daquele espetáculo extraordinário, na sua tristeza de paisagem morta, o sertão devastado como a terra combusta do Profeta,
ouvia o festivo alarido dos silvos das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a descascarem, numa exuberância magnífica de seiva.
Desse enlevo, arrancou-a o brado longínquo de Raulino, gritando aos carregadores da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre, do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximação dos entes queridos.
Obedecendo à indicação do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das margens para não escorregar, colhendo flores silvestres, parando, a revezes, para desembaraçar as vestes dos espinhos que a detinham, chegou à garganta, que Raulino designara por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas, o riacho, quando Deus dava ao Ceará chuvas benfazejas e fecundantes. Erguendo a saia, ela fruiu a delícia, havia muito não gozada, de imergir n'água sussurrante, os pés pequeninos, as pernas roliças e musculosas, adornadas de aveludada pelúcia negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljôfares cristalinos nas palmas côncavas das mãos, e banhou o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.
Interrompeu-a pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu, rugiu:
— Foi o diabo que te atravessou no meu caminho. É a última vez que me empatas, peitica do inferno!...
Luzia, na confusão da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos; mas, vencendo o impulso de cobardia, e avançando, cautelosa, deparouse-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada de terror, agitando, frenética, os braços, presa a voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aquém, arquejava Crapiúna em estos de cólera, tentando galgar as pedras que os separavam.
— Desta vez - grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinária. Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito... Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...
Em convulsão de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com uns acenos epilépticos, as mãos desarticuladas.
— Deixe a rapariga, seu Crapiúna – bradou Luzia, avançando, resoluta e destemida.
O soldado voltou-se como um tigre, ferido pelas costas.
Diante da moça, em postura de firmeza impávida, magnífica de vigor e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lívido, e recuou, como se um prestígio sobrehumano lhe aplacasse os ímpetos incoercíveis de cólera e de vingança.
— Luzia! – murmurou ele, quase súplice – Não lhe quero fazer mal... Sou um desgraçado, um miserável... Pedi-lhe outro dia, pelo amor de Deus, um instantinho de atenção. Não fez caso; não teve dó de mim... Agora vai se decidir a minha sorte...
— Arrede-se; deixe-me passar!... – intimou Luzia, com força, num tom imperativo, breve e seco.
— Escute-me, meu coração... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem como eu.
— Deixe-me passar!... — Passar!?...
Luzia avançou agressiva.
— Pensas – continuou Crapiúna, recuando, transfigurado o rosto por diabólico sorriso – Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraça pouca é bobagem...
E atirou-se de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu, e, atirando-o ao chão, subjugado, comprimiu-lhe o peito com os joelhos.
O séquito parara na Cova da Onça, cerca de cem metros de altura, donde se viam, distintamente, os lutadores.
Crapiúna gemia, espumava de raiva, medonho, sob a pressão inexorável que o esmagava.
— Miserável, miserável! – gritava Luzia, rubra de pudor, de cólera, procurando deter as mãos crispadas do soldado a lhe rasgarem o vestido –
Alexandre!... Raulino!...
A voz vibrante de angústia retumbou nas quebradas do boqueirão, como um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:
— Agüente; tenha mão nesse malvado, que já vou!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.