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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

No momento em que este auxilio chegou a Cosme, o conflito já tinha tomado feição diferente. Como a intenção principal da multidão era abrir as portas da cadeia, a fim de saírem com os criminosos, dois mascates, Braga e Bernardino, ai recolhidos por delitos comuns, ela atirou-se em peso contra as entradas. Cosme, Felipe, Maciel e os demais que tinham resistido ao furacão insurrecional, agora, escapos de seus novelos, serviam, com Antonio Rabelo e sua brava guarnição, de baluartes inexpugnáveis ante os quais se quebravam as investidas dos insurgentes. Achando seus parentes e amigos salvos, João da Cunha, que estava impaciente por tomar parte na luta, veio colocar-se ao lado deles. Tornou-se assim quase impossível aos revoltosos lograrem o seu principal intento. Mas isto os não dissuadiu dele. Colocados em frente da cadeia, vociferavam contra os sustentadores da ordem. Alguns jogavam projeteis imensos e mortais sobre os que defendiam o importante passo. Garrafas vazias, grandes seixos da rua iam a mude batere despedaçar-se nas portas e grades, impelidos pelas mãos dos amotinados. Seus estilhaços continuados feriam os impávidos defensores.

De repente um homem, que vinha das bandas do Carmo, procura a cadeia. Alguns dos amotinados, suspeitando nele um mensageiro da nobreza, atravessam-se diante dos seus passos. Loucos que foram esses! Um jagunço enorme, que o desconhecido manejava tão facilmente como se fora delicado espadim, prostrou dois deles por terra sem sentidos. Corre então a seu encontro maior numero, que não tem sucesso melhor. O desconhecido não é muito alto, nem muito corpulento. Mas sua força muscular faria inveja à mais possante fera. Quando seu braço descarrega a arma, semelha este troço de mármore e abate a seus pés os maiores obstáculos.

Ele atira-se de ombro sobre um dos mais alentados de formas e dá com ele em terra. Consegue, enfim, derrubando e ferindo os que pretendem cortar-lhe a passagem, chegar ao pé do sargento-mór.

- Lourenço! Que vens fazer aqui? Alguma novidade por lá?

- Vim chamar vosmecê a toda pressa. Do lado do rio dirigem-se para o sobrado forças numerosas. No sobrado se diz que são as forças de Luiz Soares. Luiz Soares! exclamou o sargento-mór.

- Luiz Soares! repetiram Felipe e Cosme Bezerra.

- E que faremos agora? Inquiriu João da Cunha.

- Sabendo do que havia, Antonio Rabelo aproximou-se e disse-lhes:

- Podeis ir, senhores. Eu defenderei o meu posto até exalar o ultimo suspiro. Pois bem. partiremos a cortarlhe a vanguarda – disse Cosme a Antonio Rabelo. Mas ao vosso lado, senhor capitão, ficará o alferes Diogo Maciel. Tende certeza de que estareis bem acompanhado.

Com as espadas nuas nas mãos, os fidalgos afastaram-se, formando uma mó impenetrável.

Alguns dos do bando de Jeronimo Paes, que lhes saíram ao encontro, caíram ao peso da terrível massa de Lourenço, o qual ia na frente abrindo caminho temerariamente.

Seguiam após eles as ordenanças de Cosme Bezerra e os escravos de João da Cunha.

Penosa, mas rápida, tinha corrido a noite.

Raiava, enfim o dia 23 de agosto de 1711, que ficou sendo memorável nos fastos de Goiana.

XXVI

Não tinha ainda amanhecido de todo, quando as balas dos assaltantes já sibilavam pelas urupemas do sobrado de João da Cunha, como pelas enxárcias de navio no alto mar esfuziam as lufadas de atroz procela.

Porque fora esse o lugar escolhido para as primeiras honras do assalto? Porque, em vez de correr imediatamente à cadeia, forçá-la, quebrar-lhe os ferrolhos, soltar os sentenciados, tinha Luiz Soares tomado para o pátio do Carmo, deixando entrever a intenção de atacar a habitação do fidalgo antes do que qualquer outro ponto?

A resposta é fácil. Antonio Coelho sabia a hora precisa em que Luiz Soares teria de entrar na vila. Sabia o lugar onde essa entrada devia efetuar-se: era aquém do Tanquinho, e quase fronteiro ao oitão da igreja do Senhor-dosmartirios. Tomando essa direção, escapava às trincheiras de Manoel de Lacerda, como aconteceu.

O negociante, tanto que viu aproximar-se o momento, montou a cavalo e para lá se encaminhou, seguido de cerca de cem homens. Este troço era composto em grande parte de europeus. Era o corpo de sua especial confiança. Coelho o denominava seu estado-maior. Partiram da Rua-de-rosario, ao mesmo tempo que a multidão capitaneada por Jeronimo se dirigia para o lugar onde estacionou.

Quando a gente de Luiz Soares, rompendo os últimos matos, saiu na Rua-dos-martirios, que não era então mais do que o caminho do Tanquinho, achou já ai para o receber o estado-maior dos mascates.

(continua...)

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