Por José de Alencar (1875)
Marcos Fragoso ao despedir-se do capitão-mór, tomara à direita, e reunido diante ao Ourém e mais companheiros, ganhara o atalho, que rodeando o alagado devia pô-los a caminho do Bargado. Êle conhecia perfeitamente êsse desvio, por tê-lo percorrido na véspera com Onofre.
Esperava o moço capitão alcançar pouco além dos Baús o Onofre e a escolta, que êle acreditava conduzirem D. Flor, conforme suas recomendações e o plano anteriormente combinado. Tudo correra como se esperava; e já ouvia-se a pequena distância o tropel da cavalhada.
Na desfilada em que iam, não era possível travar conversa; mas Ourém pôde trocar êste curto diálogo.
— Que é isto, primo Fragoso? Refrega de castelhanos?
— É a princesa que levamos.
— Ah! bem me queria parecer!… Pois vamos lá como D. Gaiferos:
Finca esporas no cavalo
Que o sangue lhe faz saltar;
Ei-lo que corre, ei-lo que voa,
Ninguém o pôde alcançar.
E ferrando por sua vez os acicates no cavalo, Ourém lá se foi no encalço do primo.
Afinal, quando saíram da mata para o descampado, pôde Marcos Fragoso acistar a cavalhada que ia-lhes na dianteira cêrca de cem braças. Não foi pequena a sua surpresa e dos companheiros notando nos animais selados e arreados a completa ausência de cavaleiros.
Pensou Fragoso que os animais tivessem arrancado por surpresa, deixando Onofre e a escolta desmontados. Enquanto o José Bernardo dava cêrco aos cavalos, voltou êle sôfrego ao sítio da emboscada, esperando chegar ainda a tempo de tomar D. Flor ao arção e fugir com ela.
Diante dos bandeiristas estirados no chão, e atados de pés, mãos e queixos, êle entendeu que tinha sido burlado pelo capitão-mór; e isto o encheu de furor.
Onofre e seus companheiros já tinham tornado a si do torpor, que produzira a infusão do tinguí; mas estavam bambos, e sobretudo corridos de vergonha por terem caído no laço, êles que o vinham armar. É o que chamam virar-se o feitiço contra o feiticeiro.
Nenhum deles sabia explicar a esparrela em que fôra apanhado. Apenas à lembrança ainda atordoada de alguns acudiu aquele travo especial do vinho e da aguardente, donde tiravam uma suspeita ainda obscura. O Moirão, porém, que sentira arderem-lhe as costas da mão, e logo que lhe cortaram as correias vira a cruz traçada pelo Arnaldo, benzeu-se e adivinhou que alí andavam artes do rapaz.
— Não tem que ver, murmurou. Se êle anda de pauta como Tinhoso.
A única pessoa que podia referir os pormenores da tramóia era a Rosinha, que não ficara completamente sopitada com o tinguí. Mas Jó tivera o cuidado não só de atá-la de pés, mãos e queixos, como Arnaldo fez aos outros, mas de embrulhar a cabeça de modo a tapar-lhe os olhos.
Assim nada tinha visto, e o que ouvira, pouco adiantava: era o canto da saracura, o arranco da cavalhada e o tropel da comitiva que passava tranquilamente pelo caminho.
Marcos Fragoso ficou tão exasperado com o êxito da emboscada, que proibiu aos seus vaqueiros cortarem as correias dos pulsos e artelhos dos bandeiristas, e intimou-lhes esta ordem cruel:
— Surrem-me já esta corja de biltres, para ensiná-los a não serem basbaques! Deixarem-se agarrar como preás no fojo!
O Daniel Ferro, que era mais vezeiro nessas emprêsas e sabia que no sertão ninguém, ainda o mais esperto, se livrava de tais embrechadas, fez uma observação prudente e assisada.
O capitão-mór zombara do Onofre, peando-o a êle e a seus companheiros, como a um magote de bêstas; mas quem assegurava que não passasse a demonstrações mais enérgicas? Podia resolver-se da afronta que êste lhe fizera tentando roubar D. Flor.
Nesse caso de um ataque súbito, careciam de gente brava e destemida. Não seria com êsses homens, irritados por um castigo injusto e infamante, que poderiam contar para resistir ao braço forte do capitão-mór, o qual fazia tremer ao mais valente.
Ourém e João Correia apoiaram as razões de Daniel Ferro; e Marcos Fragoso cedeu.
— Podemos seguir, senhor capitão? perguntou José Bernardo depois de cortar as correias que peavam os bandeiristas.
— Daqui para Inhamuns! disse o Marcos Fragoso, voltando-se para os companheiros. Não ponho os pés no Bargado senão depois de tirar a minha desforra.
Despachou o capitão ao José Bernardo para seguir do Bargado com a bagagem; e êle partiu dalí com os companheiros e a escolta em direitura à sua fazenda das Araras, situada à margem do rio das Flores.
Arnaldo examinava o sítio e estudava o rasto da comitiva, quando apareceu-lhe Jó, que o esperava, contando que êle voltasse alí. O velho enterrado nas rumas de folharada, tinha assistido à cena anterior; e narrou-a fielmente ao sertanejo.
— Partiu para Inhamuns, concluiu êle. Mas volta breve; e com maior bando de gente armada.
— Cá me achará, disse o sertanejo simplesmente, como se êle, só, bastasse para derrotar o bando dos inimigos.
Deixou Arnaldo ao velho na gruta e seguiu para a casa. Perto do tombador avistou o
Nicácio, que descia a-cavalo, de maca e rede na garupa, alforges no arção e todos os petrechos do sertanejo em viagem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.