Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Depois, eu não devia também chorar; não tinha de quê; o homem que eu amei era e é digno de mim.
– Certamente não foi por pensar o contrário disso que eu chorei, respondeu Celina corando.
– Então por que foi?
– Também não sei. Ficava só neste quarto pensando... fantasiando tantas coisas... tantas coisas... depois ia, sem saber por que, tornando-me triste... triste... até que desatava a chorar.
– E depois?
– Depois que chorava, eu me sentia um pouco mais aliviada de uma dor que não se pode dizer como é; continuava a pensar... a fantasiar outra vez... de novo me entristecia, e de novo chorava.
– Pobre d. Celina!...
– Olha; e nem uma só vez me tenho rido...
– Mas essa tristeza?
– É a um tempo muito amarga e muito doce; se me dessem a escolher uma festa, um baile, um belo passeio, uma noite de teatro, ou uma hora de solidão, de isolamento com a minha querida tristeza, eu te juro, d. Mariquinhas, que preferiria essa hora de pranto a essas noites de prazer.
– Eu compreendo...
– Oh! pensar nele, exclamou Celina, que se ia exaltando pouco a pouco; pensar nele!... ter sua imagem dentro do coração, e ao mesmo tempo diante dos olhos!... estar ele ausente, e eu vê-lo ao meu lado... ouvir a sua voz tão doce! tão meiga! tão melancólica! sentir o toque de sua mão que me causa um abalo indizível; o roçar de sua roupa com a minha em uma curta passagem, que me faz estremecer vivamente... vê-lo andando garboso e engraçado, ouvi-lo a cantar um hino de amor tão terno... não existir nada disso, e estarmos vendo e ouvindo tudo isso... oh! é muito! faz com que instintivamente ergamos mãos ao céu, e clamemos: “bendito seja Deus que nos deu a imaginação, para na ausência vermos e ouvirmos assim aquele a quem tanto amamos!...” – Tens razão, d. Celina!
– Oh! é sublime! prosseguiu a moça; isso é tão belo, tão encantador, tão mágico, que eu fico às vezes uma hora inteira, mais de uma hora, em contemplação, enlevada nessas delícias, nessas imagens, entre o céu e a terra, porque esse estar assim, esse gozo tem por força alguma coisa de celeste. E por fim, d. Mariquinhas, sem querer, sem sentir, no meio desse sonho de vigília, sem sofrer dor alguma, não sei por que mesmo as lágrimas caem em rios de meus olhos...
– E choras?
– Pranto bem doce! é bom quando se chora assim!...
– Meu Deus!
– Tu não choras nunca assim, d. Mariquinhas?
– Nunca.
– Infeliz! disse a “Bela Órfã” olhando com piedade para a amiga que a escutava admirada.
– Eu infeliz? por não chorar?
– Oh! sim!... porque há certas lágrimas que dão um prazer que está acima de todos os prazeres!
– Então tu és bem ditosa?
– Não.
– Como, pois, esse prazer?
– Ah! não me sacia nunca.
– E então...
– Eu sou como aquele que está devorado por ardente febre: com fervor leva aos lábios um copo d’água... esgota-o... e de novo mata-o a sede. Amar é também uma febre... não é?
– Eu já não digo palavra, respondeu Mariquinhas; estás mais adiantada do que eu.
– É porque tu não amas.
– Mas nota que tenho observado muito.
– Engano! amor não se observa... sente-se!
– Todavia tu és contraditória, d. Celina.
– Como?
– Começaste queixando-te de tuas lágrimas, e acabaste abençoando-as.
– É porque nem todas são da mesma natureza. A imaginação, que não é nossa escrava, a imaginação, livre, independente como as aves da floresta virgem, se às vezes me oferece um quadro de esperança, de amor e de saudade, outras vezes, d. Mariquinhas, cria fantasmas que atemorizam, fantasmas horríveis que bradam a meus ouvidos... que entoam o hino infernal, o hino do desespero resumido em uma palavra fatal...
– Qual?
– Impossível!...
O som com que a “Bela Órfã” pronunciou essa palavra foi tal, que tanto ela como Mariquinhas se deixaram ficar caladas durante algum tempo, tristes e pensativas.
No entanto serenou o ardor que fizera Celina exprimir-se com tanta viveza, de modo que, quando Mariquinhas quis continuar a conversação, já a achou perturbada e comovida como no princípio.
– Mas, d. Celina, ainda me não disseste o que eu desejo principalmente saber.
– O quê?
– Quem é o venturoso mancebo que tanto merece de ti.
A “Bela Órfã” hesitou.
– Se eu não quisesse saber também tudo quanto se tem passado entre ele e ti, continuou Mariquinhas, abster-me-ia de fazer-te esta pergunta.
– Por quê?
– Porque não acho muita dificuldade em adivinhar o nome daquele que amas.
– Já o adivinhaste, d. Mariquinhas?
– Ora!...
– Desde quando?
– Desde antes de teus anos.
– Foi na verdade bem cedo, respondeu Celina; porque então eu mesma apenas o suspeitava.
– Não duvido; isso acontece. Mas então dizer-mo?
– Para que, se tu já sabes?
– Seria possível que eu estivesse em erro.
– És muito viva para te enganares.
– Pois bem, dir-te-ei eu o nome, é porém com uma condição.
– Qual?
– Se eu acertar, hás de confessá-lo.
– Sim.
– Chama-se...
Celina olhou para Mariquinhas.
– Cândido.
A “Bela Órfã” abaixou a cabeça.
– Adivinhei?
– Adivinhaste, murmurou a moça.
– Levanta a cabeça; conta-me o que tem havido; não foi para isso que nos reunimos hoje?
Celina pensou um momento e disse:
– Sou uma louca.
– Tu?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.