Por Inglês de Sousa (1891)
Francamente, pensava, no silêncio daquela noite de desagradável vigília, não seria jamais o temor da morte que o faria renunciar ao seu tio religioso quão humanitário projeto. Estava pronto para arrostar com todos os perigos, naufrágios, fomes, torturas. Confessava-o a si mesmo, sem vislumbre de charlatanismo ou de hipocrisia, sondando a sinceridade do seu coração de moço. Sabia que se expunha a perder-se em pleno rio ou sob a torrente impetuosa de alguma cachoeira, a ser envenenado pelo impaludismo, a ser devorado pelas feras da floresta, esmagado por altas terras ou por cedros gigantescos. Mas passar noites sem dormir, a matar mosquitos, gastando a resignação e a paciência em tão mesquinhos e vulgares sofrimentos, em tão ridículas provações, não o podia levar a sangue frio. Os malditos não se limitavam a morder... cantavam, e aquele zinzim contínuo e monótono bulialhe com os nervos, perturbava-lhe a calma do espírito, apertando-lhe o coração num desespero infantil. Queria ser pregado a uma árvore pelas flechas dos selvagens, como o mártir S. Sebastião, de gloriosa memória, mas não via em que aproveitava à sua glória aquele martírio obscuro e inenarrável de ser devorado aos bocadinhos pelos carapanãs da beira do rio. Era um tormento inglório e escusado, porque em nada adiantava a grande obra da conversão dos mundurucus, e ninguém o tomaria a sério. E se ia continuar por noites e noites, por toda a viagem, por todo o tempo que pretendia dedicar à catequese, nas excursões às tabas mundurucus, nas horas de oração e preparo espiritual, e até no momento do sacrifício, quando precisasse dar ao selvagem o exemplo de uma calma superior, de uma resolução digna, qual seria a paciência humana capaz de suportar tão miseráveis e pequenos quão agudos e cruéis sofrimentos? O ardor do sangue que sentia correr-lhe nas veias, a sensualidade da carne cheia de vida e robustez, cujos incitamentos combatia pela dedicação e pelo sacrifício, preferiam decerto a morte violenta e heróica, as grandes sensações que aniquilam o corpo, elevando a alma.
A preocupação constante dos últimos dias o impedira de dormir, enquanto o pudera fazer ao rumor cadenciado dos remos dos camaradas ou no silêncio da casinha de palha do pescador Guilherme, e agora que cedera à certeza de levar avante o grande desideratum da sua vida de padre; agora que o corpo cansado se tornava exigente na reivindicação dos seus direitos, e a calma da noite o convidava a um sono reparador, eis que o não conseguia conciliar pela oposição invejosa de pequeninos insetos que o queriam todo para si, como se sua propriedade fora! As pálpebras fechavam-se, abria-se a boca em bocejos sonolentos, o corpo todo entregava-se a um torpor doentio e profundo, mas era impossível repousar um instante. Os olhos lacrimejavam, a cabeça estava oca de pensamentos, e os membros doloridos sentiam duplamente a dureza da improvisada cama que arranjara... Era impossível conservar-se deitado. Ergueu-se, e fazendo um enérgico movimento afugentou os mosquitos. Levantou os olhos para o céu estrelado e profundo, com uma vontade de queixar-se e de desafiar ao mesmo tempo o vasto firmamento. As pequenas estrelas pareciam observá-lo com um milhão de olhos curiosos, que o envergonharam do seu arrebatamento. Um frio glacial invadiu-lhe o peito, gerando a convicção de que fora vítima duma tentação do demônio que lhe queria vencer a constância para o desviar do serviço de Deus. Esta idéia arrancou-o com uma sacudidela ao torpor físico e moral que o ia despenhando no poder do inimigo de sua alma, e restituiu-lhe a força. Curvou-se sobre a borda da canoa, banhou o rosto e as mãos na água fresca do rio, e como se a ablução lhe desse um novo batismo de crença e de fé, sentiu-se são. Sentou à popa da montaria, e reatou o fio das suas meditações sobre a empresa que havia de vencer as tentações da sua carne de vinte e dois anos, preparando-o para a outra vida, e habilitando-o a deixar honrosa memória do seu nome.
Rememorou os feitos sublimes dos mártires do catolicismo nascente, os tormentos aturados por todos os que de boa mente trocavam algumas horas de dores por uma eternidade de beatitude, e reputou-se feliz por haver teimado na árdua viagem empreendida, do que rendeu graças infinitas ao seu anjo da guarda, que o não desamparara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.