Por Aluísio Azevedo (1884)
— És uma peste! Gritou-lhe Amâncio. — Por tua causa o tísico foi morrer no meu quarto! Ande! Vá chamar o Dr. Coqueiro ou alguém que trate do corpo!
Aqui em cima, creio que não há ninguém, nem sequer o Paula Mendes.
O rabequista, com efeito, havia ficado essa noite em companhia da mulher em Niterói .
A notícia levantou embaixo um rebuliço. À exceção do Campelo e do guarda-livros, ninguém mais se conservou na cama.
Mme. Brizard arrepelava-se, praguejando contra o maldito caiporismo que a perseguia ultimamente.— Até já lhe vinham os tísicos morrer em casa! Era demais!
Causou grande impressão a narrativa de Amâncio sobre os últimos momentos do homem. O Dr.Tavares desfez-se em altas considerações a esse respeito. Coqueiro proibiu à irmã que subisse ao segundo andar, enquanto o cadáver não estivesse convenientemente amortalhado e deposto no sofá que às pressas se carregou para cima. Por toda a casa distribuíram-se fogareiros de incenso e alfazema. Sabino fora, de um pulo, buscar à botica uma garrafa de labarraque , e o copeiro saíra para lançar à primeira praia o colchão, os lençóis e os travesseiros que serviam ao defunto.
Descarregou-se o quarto. A francesa quis abrir um velho baú de folha, que jazia a um canto e que era o único objeto deixado pelo morto; mas o Dr. Tavares opôs-se-lhe energicamente, citando artigos do código criminal e dizendo em tom de autoridade que o falecido era um súdito português e, por conseguinte, só ao cônsul de sua nação competia fazer-lhe o espólio dos bens!
— E o que nos ficou ele a dever?! E mais a despesa dos lençóis, do colchão e do diabo?! Perguntou Mme. Brizard.
— Recebe-se do consulado português ou não se recebe de pessoa alguma, apressou-se a explicar o Coqueiro, que já sabia perfeitamente não haver dentro do tal baú coisa alguma de valor.
* * *
O corpo saiu no dia seguinte, em um carro da misericórdia. E Amâncio declarou positivamente que não estava disposto a ficar na casa de pensão em mais um dia.
— Pois então vamos todos para um arrabalde! — deliberou Mme. Brizard, em conseqüência dos repetidos conchavos que fizera com o marido.
Diabo era o estado de Nini, a pobrezita achava-se agora completamente desarranjada. Comia encostando a boca ao prato, como um bicho; não trocava palavra com pessoa alguma e nem mais podia ficar em liberdade , porque de vez em quando lhe acometiam frenesis, que lhe davam para morder os outros e espatifar as roupas, até ficar nua.
O médico entendia, porém, que, com um bom regime hidroterápico, ela ainda podia se restabelecer. Citou exemplos animadores, “bonitos casos”, disse os belos resultados que ultimamente se obtinham por meio das duchas de água fria no tratamento das enfermidades nervosas, e terminou declarando que, só por esse meio, havia esperança de uma cura radical.
E o doutor, logo que esteve a sós com Amâncio, confidenciou-lhe, rindo:
— Já toquei à velha sobre aquilo que falamos; creio que desta vez fica o senhor livre da histérica!
Venceram-se, com efeito, os escrúpulos de Mme. Brizard, e Nini foi para a casa de saúde do Dr. Eiras. A mãe teria notícias dela todos os dias e havia de lhe aparecer em pessoa duas vezes por semana.
— Aquela rapariga era o tormento de sua vida! Antes Deus a tivesse chamado para si! Agora, o que não seria necessário gastar com a tal casa de saúde?... talvez uns vinte mil-réis diários, se não foram mais! Onde iria tudo aquilo parar? Era caiporismo, definitivamente!
Como desejavam, descobrir-se uma casa em Santa Teresa. O Dr. Tavares e o guarda-livros acompanhariam a família; Campelo, o esquisitão, é que não estava pela mudança. Logo que lhe falaram nisso, pediu secamente a nota de suas despesas, pagou-a, e retirou-se muito calmo, assoviando, de mão no bolso, cabeça erguida, na mesma fleuma inalterável com que costumava sair todas as manhãs para o trabalho.
Todo ele ia como a dizer no seu silêncio indiferente e egoísta: “A mim tanto se me dá seis como meia dúzia ...morar com Pedro ou morar com Paulo, tudo para mim é a mesma coisa, desde que, em troca do — meu dinheiro — , me apresentem um quarto limpo e a comida a horas certas. Se dez anos continuasse aqui Mme. Brizard, dez anos ficaria eu na Rua do Resende; mas, uma vez que se muda para Santa Teresa — Adeus! vou bater a outra freguesia... o que por aí não faltam são casas de pensão.”
O Paula Mendes, ao entra pouco depois, recebeu em cheio a notícia de a família Coqueiro ia deixar a casa e que por conseguinte era preciso que ele saldasse as suas contas.
Mas o rabequista não tinha dinheiro na ocasião. — Logo que o tivesse havia de pagar integralmente.
Os locandeiros não estavam por isso, já lhes bastavam os calos do gentleman e do Melinho! E , depois de uma troca agitada de palavras, Mendes propôs deixar o piano, ficando-lhe o direito de resgatá-lo mais tarde com a devida importância.
Mme. Brizard queria do dinheiro e não instrumentos de música! O Sr. Paula Mendes que vendesse o piano e liquidasse depois as suas contas!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.