Por Aluísio Azevedo (1897)
E logo a cidade parecia vir a seu encontro, tal era a rapidez com que o escaler deslargava para a praia.
XXX
FULMINAÇÃO
Enquanto sucedia ao pobre Gabriel o que acabamos de ver, Melo Rosa tomava um carro de praça e mandava tocar à toda para Laranjeiras, correndo ao encontro de Ambrosina, que devia estar à sua espera, pronta a desferir o vôo, conforme entre si haviam combinado os dois velhacos.
E, estendido sobre as almofadas do carro, ia o Melo a pensar, sorrindo por entre as fumaças do seu charuto, na engenhosa estratégia que imaginara para livrarse de Gabriel.
Àquelas horas estaria o toleirão a arrancar os cabelos, desesperado, a bordo de um escaler, em plena baía.
— Que tenha paciência! disse consigo o tratante. Piores cousas sofreram outros neste mundo!...
E passou a calcular o resultado do que havia urdido: Eram três horas. O vapor não levantaria ferro antes das seis... ele nada mais tinha que tomar Ambrosina e meterse com ela a bordo. Gabriel seria posto em liberdade à meianoite; e só então iria queixarse à polícia; antes, porém, que esta se mexesse, já o Melo estaria longe!
E, de tão preocupado com estes raciocínios, não notou que o cocheiro do seu carro acabava, sem afrouxar na carreira, de ser substituído pelo nosso intrépido Jorge; como também que o carro já não levava a direção de Laranjeiras, porque no Largo da Lapa, em vez de subir para o Catete, tomou pela rua dos Arcos.
O Melo, completamente distraído, continuava de si para si:
— No fim de contas, tanto Ambrosina como o dinheiro do Gabriel, são duas fortunas bem ganhas, pois não se pode negar que muito arrisquei o pêlo para conquistálas... Não fosse eu um sujeito esperto, que nenhuma dessas duas belas cousas me chegariam às mãos!...
Não devia, por conseguinte, preocuparse em extremo com a fraudulência do caso, nem devia sentir remorsos: "Cada um puxa a brasa para sua sardinha!..." Gabriel que se queixasse da sorte, que havia feito de Melo um homem pobre... Além disso, o amor, o grande amor! tinha costas largas e era um pretexto magnífico para todas aquelas patifarias... Que diabo não se poderia explicar na vida pela "Paixão amorosa?..." Quantos exemplos não havia por aí de bons rapazes, que se deitavam a perder por causa de mulheres?... Todos perdoariam, desde que a sujeita fosse deveras bonita!... E muito mais que ele não precisava absolutamente de voltar ao Brasil... Para fazer o quê?... Paris! Paris o atraía como uma pátria desconhecida! em Paris, o Melo encontraria decerto mil modos de exercer a sua inteligência e o seu espírito!... Quanto à Ambrosina, essa nunca seria um estorvo, porque ele não era nenhuma criança e sabia lidar com toda a sorte de gado mulheril, fosse este o mais cornígero e bravio.
— Mas é verdade! exclamou, despertando das suas cogitações. Não chegamos hoje, ó cocheiro? Há boa hora que andamos!
O cocheiro não se deu por achado, e Melo reparou que nesse instante acabava de passar pelo matadouro e entrava na rua de Mariz e Barros.
— Para onde diabo vamos nós?! berrou ele a puxar o paletó de Jorge. Olha que vamos errados, animal!
— Não lhe dê isso cuidado! retorquiu o cocheiro. E fustigou os cavalos com terrível gana.
— Pára! Pára! Pára! gritava o rapaz, vendo que o conduziam por uma picada. Se não paras, chamo a polícia!
— Chame, se for capaz! respondeu Jorge, fazendo afinal parar o carro defronte de uma casinha de porta e janela.
E depois de apearse, acrescentou, perfilandose defronte do Melo:
— O senhor vai entrar imediatamente nesta casa, ou será denunciado à polícia como ladrão!
— Mas isto é uma emboscada! exclamou o tolhido.
— Justamente, confirmou o cocheiro com ar calmo. Eu sou o Jorge, que o senhor bem conhece, e estou cá por ordem do Dr. Gabriel e de D. Ambrosina, aos quais tencionava o senhor engazupar! Faça barulho, e veremos quem ficará do pior partido! Aí tem essa carta; leia! É de D.Ambrosina...
E o cocheiro entregou ao Melo uma carta.
— Canalhas! disse este, abrindoa. Entendam lá semelhante escória! São todos da mesma força!
A carta dizia o seguinte:
"Melo,
"Sei de tudo o que sucedeu, não tenhas, porém, receio algum; tudo isso foi para salvarte.
Descobriram os nossos projetos, mas crê que os não sufocaram. Por ora, é necessário que te submetas ao que quer essa gente; julgam que eu parto hoje com Gabriel e te prenderão até à meianoite. Gabriel não me acompanhará, todos suporão que eu fugi sozinha para a Europa; todos, à exceção de ti, que me irás procurar misteriosamente na avenida de Magalhães, chalé n. 5. Não te revoltes quando te prenderem e lança a culpa para mim.
"Amanhã estarás livre, e depois de amanhã estaremos de partida. Se alguém te falar a meu respeito, finge que me supões longe, e, logo que te aches desembaraçado, corre a procurarme onde já te indiquei.
"Toda cautela é pouca! Pelo sim, pelo não, rasga a esta carta...
"Tua sempre — Ambrosina."
Miserável! disse afetadamente o Melo, depois da leitura; Enganoume! fugiu!
E apeandose por sua vez, acrescentou para Jorge:
— Estou à sua disposição...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.